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ArPA 2022 | Guardiões da Liberdade

São Paulo
1 de jun – 5 de jun de 2022

ArPA 2022 | Josafá Neves
Guardiões da Liberdade

ArPa
Trabalhos

STAND U10
COMPLEXO DO PACAEMBU
SÃO PAULO, BRASIL
01.06.2022 – 05.06.2022

“Brasil, meu nego deixa eu te contar a história que a história não conta o avesso do mesmo lugar na luta é que a gente se encontra”
Samba Enredo Mangueira 2019

 

Para enfrentar o mistério da existência, o Ser Humano se vale de três ferramentas essenciais, surgidas do medo e da curiosidade: a ciência, a religião e a arte. Elas respondem aos anseios de uma espécie que busca inovar, pesquisar e criar para obter respostas àquilo que transcende o real. Os objetos artísticos situam-se na confluência entre a técnica e a poesia e são, ao mesmo tempo, filhos da ciência e corporificações do culto e da fé, atuando como elementos fundamentais nos ritos religiosos.

Ao longo da história, arte e religião atuam como ações complementares, uma alimentando a outra, sedimentando valores e subvertendo conceitos. No Brasil, o colonizador europeu trouxe as suas imagens e implantou entre nós as curvas e dobras do Barroco, arte da imperfeição, temente a Deus. Posteriormente, com a chegada de milhões de pessoas escravizadas, surgem novas imagens, oriundas dos cultos da fé que foram perseguidos e direcionados para os desvios da marginalidade. As obras produzidas por Josafá Neves para essa exposição revelam a potência de imagens desprezadas pelo discurso oficial. Aqui não há espaço para acomodações, para discursos conciliatórios, que busquem criar uma falsa ideia de harmonia e integração social num país majoritariamente formado por mestiços, filhos do estupro de mulheres negras por parte do homem branco.

A história da arte brasileira, escrita por homens brancos, é o retrato dessa imagem deliberadamente obliterada, que ignora a arte e a cultura vindas da África para valorizar tão somente a presença europeia como única matriz de conhecimento e saber. Mesmo no passado recente, a presença de artistas negros no modernismo – ainda reduzida – é justificada somente através de discursos críticos, que associam tais artistas a estratégias do movimento Naif ou a movimentos construtivistas europeus, desprezando a geometria presente nos totens, nos ritos, nas máscaras e nos corpos africanos. A história da arte brasileira reflete a imagem de um país que não se reconhece, que não se identifica como nação multiétnica.

Nesse triste momento da vida nacional, onde a religião, fenômeno essencial para a comunhão humana, é assaltada pela intolerância e pelo ódio, a mostra “Orixás”, de Josafá Neves, é um marco para se reconhecer a força da arte e da cultura de origem africana. E ela há de atuar como elemento identificador, para que os afrodescendentes se identifiquem e permaneçam na luta em defesa de seus direitos e de sua plena cidadania. Alguns aspectos simbólicos merecem destaque: o museu projetado por Niemeyer é uma grande casa, uma grande oca e, apresentados no mezanino, no mais alto espaço expositivo do local, os orixás parecem receber os visitantes em sua própria casa, criando uma atmosfera encantada de beleza e admiração, de encontro com o nosso próprio espelho, com aquilo que tentaram nos roubar, mas que resiste em nós como relíquia e que agora se abre em cantos de plenitude. Nas paredes, a simbologia pictórica dos dezesseis orixás que o artista sintetiza homenageia Rubem Valentim, referência fundamental na construção da identidade cultural negra no Brasil. No centro, o imponente Xangô a todos recebe como verdadeiro anfitrião e mestre do saber e da cultura.

No térreo, numa área de característica mais intimista, o artista apresenta dezesseis cabeças em cerâmica com a simbologia e cores de cada orixá, produzidas na cidade de Tracunhaém, importante polo de artesanato e arte popular no estado de Pernambuco. Em cada extremidade, Oxum e Nossa Senhora Aparecida, exemplo marcante do sincretismo religioso brasileiro, afirmam a sua negritude e aludem à saga de violência contra as mulheres negras no Brasil. Da escrava Anastácia amordaçada até Marielle Franco, mulher negra assassinada por defender a liberdade, o brado que não se cala é de dor, indignação e revolta. Até quando esse país insistirá em não reconhecer a violência contra seu próprio povo? Até quando seremos cordeiros de um discurso apaziguador, que atende somente a interesses que visam a manutenção de privilégios, numa sociedade dividida pela cor?

Por suas qualidades intrínsecas e por sua necessária presença no atual momento político e cultural do país, a mostra “Orixás” marca um momento importante na construção de uma estética que reflita a complexidade e a diversidade das manifestações artísticas brasileiras, e é preciso aplaudir o Museu da República de Brasília por esse protagonismo e por permitir que esse evento ocorra inicialmente na capital do país. A história da arte no Brasil começa a refletir o que somos na verdade. Na arte, a contaminação cultural sempre ocorreu. O cubismo, como sabemos, é também fruto direto da arte africana, de suas máscaras de forte apelo religioso e simplificação formal. Josafá Neves, por sua vez, contamina suas obras com referências expressionistas, com elementos oriundos do concretismo ocidental, associando-os aos signos arquetípicos e a soluções formais presentes na escultura e na pintura corporal africana. Essa é a dança, esse é o canto, essa é a essência da arte que Josafá Neves nos entrega como oferenda. Axé!

Marcus de Lontra Costa

Trabalhos

Exú, 2020
Veja todas

Josafá Neves

Brasília – 1971
Vive e trabalha em Brasília, Brasil

Artista plástico, afrobrasileiro, nascido em Brasília em 1971, autodidata. Há 24 anos de dedicação integral ao ofício das artes, participou de exposições coletivas e individuais com óleo sobre tela, desenho, escultura, cerâmica e instalações, em cidades como Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Paris, Massachusetts, Havana e Caracas. A prática da pintura para o artista é de um valor incontestável e efetivo. Um dos encantos dos trabalhos de Josafá está justamente na proposta consciente de criar as pinturas a partir de uma pele negra: as telas são sempre pintadas de preto antes da aplicação de outras cores.
A atmosfera e riqueza gerada é única.

ArPa
Trabalhos

STAND U10
COMPLEXO DO PACAEMBU
SÃO PAULO, BRASIL
01.06.2022 – 05.06.2022

“Brasil, meu nego deixa eu te contar a história que a história não conta o avesso do mesmo lugar na luta é que a gente se encontra”
Samba Enredo Mangueira 2019

 

Para enfrentar o mistério da existência, o Ser Humano se vale de três ferramentas essenciais, surgidas do medo e da curiosidade: a ciência, a religião e a arte. Elas respondem aos anseios de uma espécie que busca inovar, pesquisar e criar para obter respostas àquilo que transcende o real. Os objetos artísticos situam-se na confluência entre a técnica e a poesia e são, ao mesmo tempo, filhos da ciência e corporificações do culto e da fé, atuando como elementos fundamentais nos ritos religiosos.

Ao longo da história, arte e religião atuam como ações complementares, uma alimentando a outra, sedimentando valores e subvertendo conceitos. No Brasil, o colonizador europeu trouxe as suas imagens e implantou entre nós as curvas e dobras do Barroco, arte da imperfeição, temente a Deus. Posteriormente, com a chegada de milhões de pessoas escravizadas, surgem novas imagens, oriundas dos cultos da fé que foram perseguidos e direcionados para os desvios da marginalidade. As obras produzidas por Josafá Neves para essa exposição revelam a potência de imagens desprezadas pelo discurso oficial. Aqui não há espaço para acomodações, para discursos conciliatórios, que busquem criar uma falsa ideia de harmonia e integração social num país majoritariamente formado por mestiços, filhos do estupro de mulheres negras por parte do homem branco.

A história da arte brasileira, escrita por homens brancos, é o retrato dessa imagem deliberadamente obliterada, que ignora a arte e a cultura vindas da África para valorizar tão somente a presença europeia como única matriz de conhecimento e saber. Mesmo no passado recente, a presença de artistas negros no modernismo – ainda reduzida – é justificada somente através de discursos críticos, que associam tais artistas a estratégias do movimento Naif ou a movimentos construtivistas europeus, desprezando a geometria presente nos totens, nos ritos, nas máscaras e nos corpos africanos. A história da arte brasileira reflete a imagem de um país que não se reconhece, que não se identifica como nação multiétnica.

Nesse triste momento da vida nacional, onde a religião, fenômeno essencial para a comunhão humana, é assaltada pela intolerância e pelo ódio, a mostra “Orixás”, de Josafá Neves, é um marco para se reconhecer a força da arte e da cultura de origem africana. E ela há de atuar como elemento identificador, para que os afrodescendentes se identifiquem e permaneçam na luta em defesa de seus direitos e de sua plena cidadania. Alguns aspectos simbólicos merecem destaque: o museu projetado por Niemeyer é uma grande casa, uma grande oca e, apresentados no mezanino, no mais alto espaço expositivo do local, os orixás parecem receber os visitantes em sua própria casa, criando uma atmosfera encantada de beleza e admiração, de encontro com o nosso próprio espelho, com aquilo que tentaram nos roubar, mas que resiste em nós como relíquia e que agora se abre em cantos de plenitude. Nas paredes, a simbologia pictórica dos dezesseis orixás que o artista sintetiza homenageia Rubem Valentim, referência fundamental na construção da identidade cultural negra no Brasil. No centro, o imponente Xangô a todos recebe como verdadeiro anfitrião e mestre do saber e da cultura.

No térreo, numa área de característica mais intimista, o artista apresenta dezesseis cabeças em cerâmica com a simbologia e cores de cada orixá, produzidas na cidade de Tracunhaém, importante polo de artesanato e arte popular no estado de Pernambuco. Em cada extremidade, Oxum e Nossa Senhora Aparecida, exemplo marcante do sincretismo religioso brasileiro, afirmam a sua negritude e aludem à saga de violência contra as mulheres negras no Brasil. Da escrava Anastácia amordaçada até Marielle Franco, mulher negra assassinada por defender a liberdade, o brado que não se cala é de dor, indignação e revolta. Até quando esse país insistirá em não reconhecer a violência contra seu próprio povo? Até quando seremos cordeiros de um discurso apaziguador, que atende somente a interesses que visam a manutenção de privilégios, numa sociedade dividida pela cor?

Por suas qualidades intrínsecas e por sua necessária presença no atual momento político e cultural do país, a mostra “Orixás” marca um momento importante na construção de uma estética que reflita a complexidade e a diversidade das manifestações artísticas brasileiras, e é preciso aplaudir o Museu da República de Brasília por esse protagonismo e por permitir que esse evento ocorra inicialmente na capital do país. A história da arte no Brasil começa a refletir o que somos na verdade. Na arte, a contaminação cultural sempre ocorreu. O cubismo, como sabemos, é também fruto direto da arte africana, de suas máscaras de forte apelo religioso e simplificação formal. Josafá Neves, por sua vez, contamina suas obras com referências expressionistas, com elementos oriundos do concretismo ocidental, associando-os aos signos arquetípicos e a soluções formais presentes na escultura e na pintura corporal africana. Essa é a dança, esse é o canto, essa é a essência da arte que Josafá Neves nos entrega como oferenda. Axé!

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Brasília – 1971
Vive e trabalha em Brasília, Brasil

Artista plástico, afrobrasileiro, nascido em Brasília em 1971, autodidata. Há 24 anos de dedicação integral ao ofício das artes, participou de exposições coletivas e individuais com óleo sobre tela, desenho, escultura, cerâmica e instalações, em cidades como Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Paris, Massachusetts, Havana e Caracas. A prática da pintura para o artista é de um valor incontestável e efetivo. Um dos encantos dos trabalhos de Josafá está justamente na proposta consciente de criar as pinturas a partir de uma pele negra: as telas são sempre pintadas de preto antes da aplicação de outras cores.
A atmosfera e riqueza gerada é única.

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