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Campos Sintéticos

São Paulo
04 Set – 27 Out 2018

Campos Sintéticos
Isabelle Borges

Campos Sintéticos
Trabalhos
Vistas da exposição
Vídeo
Isabelle Borges

Galeria Kogan Amaro São Paulo
Alameda Franca, 1054
Jardim Paulista, São Paulo, SP
info@galeriakoganamaro.com

Campos sintéticos, bifurcações no tempo e espaço, caminhos que se entrecruzam.

Sempre que escrevemos, comentamos ou refletimos sobre um trabalho de arte, para afirmá-lo, nos perguntamos o que a artista quer dizer com suas pinturas.

Essa seria a pergunta óbvia e esperada para iniciar um texto crítico para o que se apresenta na mostra individual Campos Sintéticos, na Emmathomas Galeria.

A resposta, a mais simples, seria o que se vê numa pintura é tão somente o que se vê. Nada além disso.

Em outras palavras, uma pintura pode ser tão somente a visão que temos das diversas cores postas sobre a tela. Como as variações dos amarelos combinados com azuis de vários matizes ou os verdes combinados com o branco e, novamente, com os azuis de tons claros. A maneira como é pintada, uma fina camada de tinta sobre a tela criando campos de cor. E claro, também a maneira como interagimos com ela ou ainda, como a sentimos. Tranquilidade, equilíbrio e contemplação silenciosa diante das formas geometrizadas que vão surgindo sobre a tela.

“Não é nada mais do que o que está ali”, disse certa vez Robert Rayman, quando perguntado o que se via em suas pinturas por Phyllis Tuchman, para a revista Artforum (nº 9 de Maio de 1971).

Pode parecer estranho ler isso quando estamos acostumados com textos críticos densos que tentam dissecar conceitualmente uma pintura, deixando de lado o gesto simples da experiência de pintar e dos significados primários que uma pintura pode conter quando vista.

Isabelle Borges apresenta uma nova série inspirada na natureza, por incrível que pareça; pois quando olhamos para suas pinturas, sem esse conhecimento prévio do que a artista observa e pensa para pintar, o que vemos são pinturas com um viés construtivista, mais precisamente, um abstracionismo geométrico com formas, linhas e cores inspiradas em desenhos casuais, observados na natureza.

Também de imediato percebemos que as pinturas não são emolduradas, suporte que as distancia da parede expositiva. A própria tela e sua estrutura de chassis são os seus enquadramentos. Uma dessas pinturas, na exposição Campos Sintéticos, é instalacional. Uma pintura site specifc, direto na parede, transformando uma lateral e fundo da galeria em uma pintura que engloba o espaço com suas grandes dimensões. Das paredes saem linhas retas geometrizantes pintadas em cores vivas que com a incidência de luz, saltando como formas tridimensionais soltas no espaço. Cria uma experiência sensorial visual e sinestésica.

Borges pensa o espaço arquitetônico como forma de pintar ao atuar diretamente sobre as paredes do lugar, transformando-as em suporte para suas pinturas, mesmo quando estão limitadas ao quadro, sem moldura. As laterais são parte da tela. A parede e a pintura tornam-se uma coisa só, permitindo que o público tenha uma experiência sensorial visual única ao adentrar suas instalações espaciais que fundem arquitetura com pintura, tridimensionalizando-a. Confere assim, profundidade e volumetria imersivas tal qual os experimentos Dadaístas do início do século XX.

O contato com o trabalho do artista Kurt Schwitters (1887 – 1948), principalmente as séries de colagens dadaístas, foram determinantes e tiveram forte influência no que viria fazer com as pinturas instalativas que se projetam no espaço, extrapolando a parede. Deve-se lembrar aqui os primeiros experimentos pictóricos de Piet Mondrian (1872 – 1944), outro artista a propor a espacialização da pintura. Foi o primeiro a colocar a tela eliminando a moldura, criando a sensação de tridimensionalidade no plano pictórico. As laterais foram pintadas como faz também Isabelle Borges, integrando a pintura à parede nessas instalações. Dessa forma provocam desfoque da tela e conseguem, com essa estratégia, a atenção do espectador para o espaço circundante.

Sem moldura, as telas têm a parede como continuação pois as pinturas saem pelas bordas e laterais transformando-se em acidentes pictóricos de alto relevo, incorporando-as às paredes que às recebem.

Cabe ainda lembrar das experiências dos suprematistas e construtivistas, como, por exemplo, o russo El Lissitzky (1890 – 1941), que fez a passagem da pintura para a arquitetura definitivamente. Tratava-se de uma pintura instalacional que saía da tela e se expandia pelas paredes do espaço expositivo, fundindo a pintura na arquitetura, quando tudo tornou-se uma coisa só. As pinturas passaram a ser ambientes pictóricos vistos como espaços de vivências. Cor, forma, gesto, luz e arquitetura que abrigavam quem as observavam. Mais tarde, foi a vez de Lygia Clark que “quebrou a moldura” expandindo também o campo pictórico. Fez com que a moldura se tornasse a figura central da composição gráfica da tela e essa tornada fundo, foi projetada para o espaço.

A radicalização desse pensamento expansivo da pintura foi realizada com Interior nº 1, de 1955. Uma pintura ambiental em que estruturava o espaço a partir das paredes, portas, dos caixilhos das portas e dos vãos do soalho, superando as propostas de Mondrian e El Lissitzky, de maneira que a pintura deveria apenas ultrapassar as bordas da pintura de cavalete. A moldura se tornou pintura. Depois veio mais um gesto definitivo de Ligia Clark nessa direção de Isabelle Borges, ao criar as pinturas ambientais.

O gesto de Borges é simples também, como o de Clark, mas trás um outro dado, uma poética que aquece sua obra. A geometria nada mais é que a subtração da atmosfera da natureza das suas pinturas. A cena que dá origem às telas com ares construtivistas vem da natureza. Os contornos e dobras precisas vêm dos caniços retos, dobrados, tombados ou quebrados que observa nos lagos e beira de rios. Aproveita dessas “imagens” tomadas da natureza apenas os desenhos das linhas que desenham essa paisagem. Eis o seu pensamento construtivo, que não se detém a uma racionalidade muito fria vista nos construtivistas radicais.

A paleta de cores guarda uma quentura e um certo lirismo no uso das cores que faz. A prioridade é da cor sobre o desenho. A cena não está mais coberta dos reflexos da luz sobre a água perdida na relação com a paisagem.

Isabelle faz uma figuração geometrizante, portanto, à partir da natureza. O aspecto são linhas racionalizantes do plano. São desenhos esquemáticos inspirados na natureza em que retira o metafísico da imagem natural que captou no lago, suspendendo ou congelando-a no tempo.

O que podemos apreender das instalações pictóricas de Borges é a de que criam profundidade nas paredes. Suas linhas, planos e cores são formas que escapam no espaço e confundem o olhar do observador quando cria linhas em perspectivas. Cria frente e fundo no mesmo plano. Na verdade, com isso, nada mais do que já foi dito tridimensionaliza o plano da parede.

Em tom formalista, o que sobressai são as linhas retas e uma paleta de cores bastante característica, ora opacas ora translúcidas, sempre cheias de luz. Mesmo quando usa a cor preta, ela vem exaltada da parede. Cria transparências tonais desenhadas por linhas sobre as cores. Cria também volumes precisos geométricos. As cores se sobrepõem às linhas que não tem a função apenas de contorno dos campos de cor, mas sim de desenhar as formas que encontra na paisagem, delimitando-as para nossa surpresa.

Suas pinturas relacionam-se com as dos concretos e neoconcretos, principalmente com a obra do pintor romeno naturalizado brasileiro, Sanson Flexor, dos artistas pioneiros do abstracionismo geométrico no Brasil.

Flexor tem uma pintura caracterizada pela transparência dos tons claros meio acinzentados, meio azulados que, embora presos na tela, saem de suas bordas expandindo-se pelo espaço circundante, conduzidos por linhas geométricas que tem nos triângulos a forma mais recorrente.

Nas instalações pictóricas de Isabelle Borges, pode-se observar que os espaços são confundidos com suas telas. A parede foi desmaterializada. A artista trata a sala como um cubo com seis faces planas, desconsiderando os cantos que, por sua vez, também foram incorporados à obra. O espectador é transformado em um ser ativo no ambiente. As pinturas são dependuradas sobre essa parede e distribuídas de forma ordenada em uma combinação de pintura sobre pintura, em perfeita simetria, tal a organização que guarda rigidez e leveza ao mesmo tempo.

O trabalho está necessariamente em transição pois sempre se desenvolve à partir do outro. A pintura está bem resolvida e todas as séries se relacionam umas com as outras. Mas é certo, o aspecto tridimensional está latente como foco aqui e no outro. É o aprofundamento justamente nesta ambiguidade de ser planos e linhas chapadas e ser também indicação de ilusão.

Suas obras são linhas que se bifurcam, planos que se formam e se dobram. Como espaços dobrados. As teorias de matemática que descrevem o espaço como um tecido maleável que se dobra.

Começou sua pesquisa há cerca de 7 anos, através da observação da geometria caótica encontrada nos reflexos de plantas aquáticas.

O trabalho está cada vez mais buscando o espaço físico e concreto por meio da arquitetura. Invadindo a parede, interagindo conscientemente com o espaço arquitetônico. Os desenhos e as colagens lembram também desenhos de produtos industriais, das arquiteturas em movimento, como em Otávia, um salto imaginário de Itálo Calvino de uma cidade teia de aranha de relações intricadas transcendendo as fronteiras da imaginação no seu livro Cidades Invisíveis. E nesse romance, o personagem de Marco Polo nos dá a medida da compreensão pictórica vista em Isabelle Borges, “jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve” em uma geografia indefinida.

O real do mundo fabrica em suas pinturas o ficcional abstrato geométrico. A magia da pintura está em pintar o que é visto no mundo pelo olhar do artista. As pinturas transitam entre formas e estruturas caóticas da natureza, que estão sempre em movimento. O mundo não é estático. Está em constante transformação. Junta-se a isso a influência sintética digital. O mundo imaterial. E, com isso, se afirma que o trabalho se diferencia da influência construtivista aonde o plano é uma geometria linear, chapada e não relacionado com o real.

Isabelle Borges busca o sutil balanço entre espaço ilusório e espaço chapado. Entre referências às teorias matemáticas e ao minimalismo. A busca da essência no menor movimento, mesmo que seja cena do caos. Espaços cheios dentro dos espaços vazios. Fica também entre os espaços, entre a linha e a forma.

Enfim, nada mais que simulações sintéticas de estruturas naturais, do entre espaços. Faz assim, uma ligação com ideias que se relacionam com o espaço e o tempo. Bifurcações.

Dobrando papéis, desenhando estruturas caóticas da natureza, só com linhas. Nada mais do que o desejo utópico de arrumar o mundo. É o percurso da artista.

Ricardo Resende
Curador e Diretor Artístico
Emmathomas Galeria

Trabalhos

isabelle-campos-sinteticos-1
Veja todos

Vistas da exposição

Vídeo

Isabelle Borges

Salvador, BA, 1966
Vive e trabalha em Berlim

Isabelle Borges nasceu em Salvador, em 1966. Entre 1985 1987, estudou Ciências Sociais na Universidade de Brasília. Entre 1988 e 1992 morou no Rio de Janeiro, onde estudou na Escola Visual do Parque Lage e teve como professores Beatriz Milhazes, Daniel Senise, Charles Watson, entre outros. Em 1993 imigrou para a Alemanha, morou inicialmente em Colônia e trabalhou como assistente de atelier de Antonio Dias e da artista americana Jack Ox, que realizava um trabalho de pesquisa sobre Kurt Schwitters, artista dadaísta alemão. O contato com o trabalho de Schwitters teve forte influência no trabalho de Isabelle Borges, principalmente em suas séries de colagem. Entre 1996 e 1997 trabalhou como assistente de Sigmar Polke. Estudou na academia de Arte de Düsseldorf. No final de 1997, mudou-se para Berlim.

Campos Sintéticos
Trabalhos
Vistas da exposição
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Isabelle Borges

Galeria Kogan Amaro São Paulo
Alameda Franca, 1054
Jardim Paulista, São Paulo, SP
info@galeriakoganamaro.com

Campos sintéticos, bifurcações no tempo e espaço, caminhos que se entrecruzam.

Sempre que escrevemos, comentamos ou refletimos sobre um trabalho de arte, para afirmá-lo, nos perguntamos o que a artista quer dizer com suas pinturas.

Essa seria a pergunta óbvia e esperada para iniciar um texto crítico para o que se apresenta na mostra individual Campos Sintéticos, na Emmathomas Galeria.

A resposta, a mais simples, seria o que se vê numa pintura é tão somente o que se vê. Nada além disso.

Em outras palavras, uma pintura pode ser tão somente a visão que temos das diversas cores postas sobre a tela. Como as variações dos amarelos combinados com azuis de vários matizes ou os verdes combinados com o branco e, novamente, com os azuis de tons claros. A maneira como é pintada, uma fina camada de tinta sobre a tela criando campos de cor. E claro, também a maneira como interagimos com ela ou ainda, como a sentimos. Tranquilidade, equilíbrio e contemplação silenciosa diante das formas geometrizadas que vão surgindo sobre a tela.

“Não é nada mais do que o que está ali”, disse certa vez Robert Rayman, quando perguntado o que se via em suas pinturas por Phyllis Tuchman, para a revista Artforum (nº 9 de Maio de 1971).

Pode parecer estranho ler isso quando estamos acostumados com textos críticos densos que tentam dissecar conceitualmente uma pintura, deixando de lado o gesto simples da experiência de pintar e dos significados primários que uma pintura pode conter quando vista.

Isabelle Borges apresenta uma nova série inspirada na natureza, por incrível que pareça; pois quando olhamos para suas pinturas, sem esse conhecimento prévio do que a artista observa e pensa para pintar, o que vemos são pinturas com um viés construtivista, mais precisamente, um abstracionismo geométrico com formas, linhas e cores inspiradas em desenhos casuais, observados na natureza.

Também de imediato percebemos que as pinturas não são emolduradas, suporte que as distancia da parede expositiva. A própria tela e sua estrutura de chassis são os seus enquadramentos. Uma dessas pinturas, na exposição Campos Sintéticos, é instalacional. Uma pintura site specifc, direto na parede, transformando uma lateral e fundo da galeria em uma pintura que engloba o espaço com suas grandes dimensões. Das paredes saem linhas retas geometrizantes pintadas em cores vivas que com a incidência de luz, saltando como formas tridimensionais soltas no espaço. Cria uma experiência sensorial visual e sinestésica.

Borges pensa o espaço arquitetônico como forma de pintar ao atuar diretamente sobre as paredes do lugar, transformando-as em suporte para suas pinturas, mesmo quando estão limitadas ao quadro, sem moldura. As laterais são parte da tela. A parede e a pintura tornam-se uma coisa só, permitindo que o público tenha uma experiência sensorial visual única ao adentrar suas instalações espaciais que fundem arquitetura com pintura, tridimensionalizando-a. Confere assim, profundidade e volumetria imersivas tal qual os experimentos Dadaístas do início do século XX.

O contato com o trabalho do artista Kurt Schwitters (1887 – 1948), principalmente as séries de colagens dadaístas, foram determinantes e tiveram forte influência no que viria fazer com as pinturas instalativas que se projetam no espaço, extrapolando a parede. Deve-se lembrar aqui os primeiros experimentos pictóricos de Piet Mondrian (1872 – 1944), outro artista a propor a espacialização da pintura. Foi o primeiro a colocar a tela eliminando a moldura, criando a sensação de tridimensionalidade no plano pictórico. As laterais foram pintadas como faz também Isabelle Borges, integrando a pintura à parede nessas instalações. Dessa forma provocam desfoque da tela e conseguem, com essa estratégia, a atenção do espectador para o espaço circundante.

Sem moldura, as telas têm a parede como continuação pois as pinturas saem pelas bordas e laterais transformando-se em acidentes pictóricos de alto relevo, incorporando-as às paredes que às recebem.

Cabe ainda lembrar das experiências dos suprematistas e construtivistas, como, por exemplo, o russo El Lissitzky (1890 – 1941), que fez a passagem da pintura para a arquitetura definitivamente. Tratava-se de uma pintura instalacional que saía da tela e se expandia pelas paredes do espaço expositivo, fundindo a pintura na arquitetura, quando tudo tornou-se uma coisa só. As pinturas passaram a ser ambientes pictóricos vistos como espaços de vivências. Cor, forma, gesto, luz e arquitetura que abrigavam quem as observavam. Mais tarde, foi a vez de Lygia Clark que “quebrou a moldura” expandindo também o campo pictórico. Fez com que a moldura se tornasse a figura central da composição gráfica da tela e essa tornada fundo, foi projetada para o espaço.

A radicalização desse pensamento expansivo da pintura foi realizada com Interior nº 1, de 1955. Uma pintura ambiental em que estruturava o espaço a partir das paredes, portas, dos caixilhos das portas e dos vãos do soalho, superando as propostas de Mondrian e El Lissitzky, de maneira que a pintura deveria apenas ultrapassar as bordas da pintura de cavalete. A moldura se tornou pintura. Depois veio mais um gesto definitivo de Ligia Clark nessa direção de Isabelle Borges, ao criar as pinturas ambientais.

O gesto de Borges é simples também, como o de Clark, mas trás um outro dado, uma poética que aquece sua obra. A geometria nada mais é que a subtração da atmosfera da natureza das suas pinturas. A cena que dá origem às telas com ares construtivistas vem da natureza. Os contornos e dobras precisas vêm dos caniços retos, dobrados, tombados ou quebrados que observa nos lagos e beira de rios. Aproveita dessas “imagens” tomadas da natureza apenas os desenhos das linhas que desenham essa paisagem. Eis o seu pensamento construtivo, que não se detém a uma racionalidade muito fria vista nos construtivistas radicais.

A paleta de cores guarda uma quentura e um certo lirismo no uso das cores que faz. A prioridade é da cor sobre o desenho. A cena não está mais coberta dos reflexos da luz sobre a água perdida na relação com a paisagem.

Isabelle faz uma figuração geometrizante, portanto, à partir da natureza. O aspecto são linhas racionalizantes do plano. São desenhos esquemáticos inspirados na natureza em que retira o metafísico da imagem natural que captou no lago, suspendendo ou congelando-a no tempo.

O que podemos apreender das instalações pictóricas de Borges é a de que criam profundidade nas paredes. Suas linhas, planos e cores são formas que escapam no espaço e confundem o olhar do observador quando cria linhas em perspectivas. Cria frente e fundo no mesmo plano. Na verdade, com isso, nada mais do que já foi dito tridimensionaliza o plano da parede.

Em tom formalista, o que sobressai são as linhas retas e uma paleta de cores bastante característica, ora opacas ora translúcidas, sempre cheias de luz. Mesmo quando usa a cor preta, ela vem exaltada da parede. Cria transparências tonais desenhadas por linhas sobre as cores. Cria também volumes precisos geométricos. As cores se sobrepõem às linhas que não tem a função apenas de contorno dos campos de cor, mas sim de desenhar as formas que encontra na paisagem, delimitando-as para nossa surpresa.

Suas pinturas relacionam-se com as dos concretos e neoconcretos, principalmente com a obra do pintor romeno naturalizado brasileiro, Sanson Flexor, dos artistas pioneiros do abstracionismo geométrico no Brasil.

Flexor tem uma pintura caracterizada pela transparência dos tons claros meio acinzentados, meio azulados que, embora presos na tela, saem de suas bordas expandindo-se pelo espaço circundante, conduzidos por linhas geométricas que tem nos triângulos a forma mais recorrente.

Nas instalações pictóricas de Isabelle Borges, pode-se observar que os espaços são confundidos com suas telas. A parede foi desmaterializada. A artista trata a sala como um cubo com seis faces planas, desconsiderando os cantos que, por sua vez, também foram incorporados à obra. O espectador é transformado em um ser ativo no ambiente. As pinturas são dependuradas sobre essa parede e distribuídas de forma ordenada em uma combinação de pintura sobre pintura, em perfeita simetria, tal a organização que guarda rigidez e leveza ao mesmo tempo.

O trabalho está necessariamente em transição pois sempre se desenvolve à partir do outro. A pintura está bem resolvida e todas as séries se relacionam umas com as outras. Mas é certo, o aspecto tridimensional está latente como foco aqui e no outro. É o aprofundamento justamente nesta ambiguidade de ser planos e linhas chapadas e ser também indicação de ilusão.

Suas obras são linhas que se bifurcam, planos que se formam e se dobram. Como espaços dobrados. As teorias de matemática que descrevem o espaço como um tecido maleável que se dobra.

Começou sua pesquisa há cerca de 7 anos, através da observação da geometria caótica encontrada nos reflexos de plantas aquáticas.

O trabalho está cada vez mais buscando o espaço físico e concreto por meio da arquitetura. Invadindo a parede, interagindo conscientemente com o espaço arquitetônico. Os desenhos e as colagens lembram também desenhos de produtos industriais, das arquiteturas em movimento, como em Otávia, um salto imaginário de Itálo Calvino de uma cidade teia de aranha de relações intricadas transcendendo as fronteiras da imaginação no seu livro Cidades Invisíveis. E nesse romance, o personagem de Marco Polo nos dá a medida da compreensão pictórica vista em Isabelle Borges, “jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve” em uma geografia indefinida.

O real do mundo fabrica em suas pinturas o ficcional abstrato geométrico. A magia da pintura está em pintar o que é visto no mundo pelo olhar do artista. As pinturas transitam entre formas e estruturas caóticas da natureza, que estão sempre em movimento. O mundo não é estático. Está em constante transformação. Junta-se a isso a influência sintética digital. O mundo imaterial. E, com isso, se afirma que o trabalho se diferencia da influência construtivista aonde o plano é uma geometria linear, chapada e não relacionado com o real.

Isabelle Borges busca o sutil balanço entre espaço ilusório e espaço chapado. Entre referências às teorias matemáticas e ao minimalismo. A busca da essência no menor movimento, mesmo que seja cena do caos. Espaços cheios dentro dos espaços vazios. Fica também entre os espaços, entre a linha e a forma.

Enfim, nada mais que simulações sintéticas de estruturas naturais, do entre espaços. Faz assim, uma ligação com ideias que se relacionam com o espaço e o tempo. Bifurcações.

Dobrando papéis, desenhando estruturas caóticas da natureza, só com linhas. Nada mais do que o desejo utópico de arrumar o mundo. É o percurso da artista.

Ricardo Resende
Curador e Diretor Artístico
Emmathomas Galeria

Trabalhos

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Veja todos

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Isabelle Borges

Salvador, BA, 1966
Vive e trabalha em Berlim

Isabelle Borges nasceu em Salvador, em 1966. Entre 1985 1987, estudou Ciências Sociais na Universidade de Brasília. Entre 1988 e 1992 morou no Rio de Janeiro, onde estudou na Escola Visual do Parque Lage e teve como professores Beatriz Milhazes, Daniel Senise, Charles Watson, entre outros. Em 1993 imigrou para a Alemanha, morou inicialmente em Colônia e trabalhou como assistente de atelier de Antonio Dias e da artista americana Jack Ox, que realizava um trabalho de pesquisa sobre Kurt Schwitters, artista dadaísta alemão. O contato com o trabalho de Schwitters teve forte influência no trabalho de Isabelle Borges, principalmente em suas séries de colagem. Entre 1996 e 1997 trabalhou como assistente de Sigmar Polke. Estudou na academia de Arte de Düsseldorf. No final de 1997, mudou-se para Berlim.

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