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Cristais de dor, de Paulo Cunha e Silva | 2000

Cristais de dor

Paulo Cunha e Silva

O trabalho de Nazareth Pacheco representa uma perturbante relação da arte com a vida. Todavia, este exercício é uma via dolorosa. Quando se suporia que a obra de arte encenaria um momento de catarse, um território de libertação, ela mergulha a pique no problema e adensa-o.

Nazareth Pacheco nasceu com um problema congênito que ao longo dos seus 39 anos de vida a obrigou a múltiplas intervenções cirúrgicas. O corpo de Nazareth transformou-se, não num território de intervenção casual, mas num espaço de intervenção programada, num ritual de sofrimento.

O seu corpo foi sendo cirurgicamente abordado, por um lado em função de problemas que se iam declarando, por outro lado em função da necessidade de construir um corpo mais viável.

Podemos, de certa forma, afirmar que o trabalho de Nazareth é o negativo do trabalho de Orlan. Enquanto nesta última a reconstrução do corpo é uma opção, uma possibilidade estética, na primeira é uma necessidade vital. Enquanto Orlan exibe o processo e o resultado da transformação, Nazareth exibe os instrumentos dessa transformação: lâminas de bisturi, agulhas de sutura, integradas em adereços femininos (colares, brincos, vestidos). Como se ela reivindicasse sistematicamente a sua condição de mulher e a articulasse com o seu sofrimento pessoalíssimo.

Estas joias do horror, que nenhum corpo suportaria colocar, sinalizam e iluminam um território escuro e sofrido em que o drama de um percurso se revela através da arte.

É como se todos estes ornamentos, se todos estes objetos de superfície, adquirissem subitamente uma brutalidade sacrificial.

Nazareth coloca cada um dos seus trabalhos pertencentes a essa série dentro de uma caixa (será um estojo?) transparente, transformando-os em objetos individuais de cobiça. Dá vontade de os adquirir, de lhes pegar. São sedutoramente repulsivos e repulsivamente sedutores. Por isso, apesar de estranhos, são nos extremamente convivíeis. A História da dor, do Sofrimento é uma história coletivamente individual. Todos nós sofremos, mas o sofrimento de cada um (podendo ser comunicável) não é partilhável. A artista precipita e clarifica essa comunicação através da manufatura destes espelhos da dor, sabendo, contudo, que o território mais intimo dessa dor é inexoravelmente seu, não havendo nenhum paliativo para esta vivencia solitária.

Revolvendo Luis Miguel Nava, não estamos aqui perante “as entranhas sobre o céu”. A evidencia de um corpo patológico e deformado esmaga qualquer possibilidade de o entender como objeto estético. E os objetos tidos consensualmente tidos por estéticos (as jóias femininas) são eles próprios adulterados por essa contaminação da evidência. O belo e o horrível encontram-se nos mesmos artefatos.

Inicialmente, por um erro de paralaxe e de habituação, pensamos estar perante um catálogo de joalheria, mas se nos aproximamos um pouco, esse catálogo funde-se com um catálogo de instrumentos cirúrgicos. Estes objetos intermediários na sua concepção, mas, terminais no seu efeito, colocam-nos, assim, perante o medo mais nuclear da nossa condição. O medo do nosso próprio corpo.

Esse medo do nosso próprio corpo e o seu entendimento paradoxal, já não como um lugar de fruição e prazer, mas, sobretudo de dor e sofrimento, é particularmente evidente na série de novos trabalhos que a artista (também nesta exposição) nos apresenta. A família de objetos perfurantes, concebidos para abrir o corpo, para produzir uma descontinuidade na pele, para, a partir do exterior, se alcançar o interior, dá agora lugar a uma nova família de objetos. Elementos de tortura estranhamente vítreos, obsessivamente transparentes, como se a artista quisesse fazer dessa evidência uma mensagem cristalina sem qualquer tipo de interferência, de opacidade.

Nazareth Pacheco constrói, desta forma, cristais para encarcerar a sua dor.

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