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Dangerous Beauty

Zurique
02 Nov – 21 Dez 2019

Dangerous Beauty
Frans Krajcberg & Nazareth Pacheco

Dangerous Beauty
Trabalhos
Vistas da Exposição

Galeria Kogan Amaro
Löwenbräukunst, Limmatstrasse 270
8005 Zürich, Switzerland
info@galeriakoganamaro.com

A essência da floresta e da humanidade nas obras de Nazareth Pacheco e Frans Krajcberg

“A beleza salvará o mundo. A frase do escritor russo Fiódor Dostoiévski nunca foi tão atual. Pois é justamente quando tantas coisas vão mal em torno de nós que é necessário falar da beleza do planeta e do humano que o habita.” Mesmo que essa beleza nos fale de dor, de angústia ou do espanto diante da destruição e das catástrofes humanitárias. No entanto, a beleza é perigosa por ser ambígua. Sedutora no sentido do que é belo, mas repulsiva no sentido de sua materialidade e causa.
A arte que pode ser bela é terrível quando nos comunica sobre uma queimada da floresta ou sobre o flagelo do corpo humano cortado e violentado por cirurgias, feridas e costuras que sangram, mutilam ou mesmo reconstituem a epiderme. A árvore vilipendiada em sua derrubada, ou quando é queimada, também sangra sua seiva até secar. Essa árvore encontrou sobrevida ao virar escultura pelas mãos de Frans Krajcberg (Kozienice, 1921-Rio de Janeiro, 2017). O corpo cortado e machucado pelas mãos de Nazareth Pacheco tem sua memória transformada em objetos perigosos quase preciosos, tal a beleza que emana do brilho dos materiais que usa para aludir a seu corpo processual que passou por cirurgias reparadoras ao longo de sua existência. É disso que tratam as obras desses dois artistas reunidos na Galeria Kogan Amaro.
A beleza nas obras de Nazareth e Krajcberg é a expressão de temas dramáticos sem cair ou resvalar para o trágico e feio. Pelo contrário, não estão tratando da beleza simplista e inocente no sentido semântico da palavra, comumente associada àquela ideia de um pôr do sol bonito no fim da tarde. As questões tratadas pelos artistas são perigosas aos nos seduzirem pela beleza da matéria e da forma para contar duras verdades. Mas, é claro, artistas existem simplesmente por aquilo que fazem e, consequentemente, são mais interessantes naquilo que são.

A obra de Nazareth é sobre a vida transformada em objetos belos, aparentemente adornos para o corpo, feitos com matéria plástica – lâminas, agulhas, anzóis, sangue e cristais – repulsiva, pois cortam e dilaceram a memória do corpo “retratado” em sua ausência física. Os vestidos, as saias, os colares, a touca, o balanço e o berço estão vazios, sem o corpo que lhes daria forma, peso e volume. São apenas para ver, impedidos de serem vestidos ou tocados. Cria uma beleza cortante aos olhos que não pode ser tocada sob o risco de ferimentos. Mas, ainda assim, é a arte que embevece, machuca e dói mesmo quando apenas observada como adornos para o corpo.

Já em sua primeira exposição, apresentou objetos feitos de látex que aludiam à dor silenciosa e à dimensão de seu corpo. Nas paredes, instalou retratos e caixas que carregavam objetos que contavam das cirurgias e dos tratamentos estéticos a que se submeteu, como se fosse uma instalação na dimensão do próprio corpo. É o que também podemos observar nessa primeira mostra na Galeria Kogan Amaro em Zurique. Uma exposição monográfica de sua trajetória de quase três décadas. Trabalhos que abrangem o percurso em que teve as lembranças de um corpo feito de cortes, dores e reconstituição como tema principal de suas preocupações estéticas e plásticas.
Em uma entrevista para seu mais recente livro, Nazareth Pacheco conta que sempre gostou de mexer com as mãos depois de observar sua mãe, que gostava de costurar. Era um exercício para que despertasse e superasse suas limitações físicas de maneira a tornar-se uma criança independente. Lembra de quando passava férias na fazenda da avó fazendo tricô em sua companhia. Aprendeu a tecer. Enquanto a mãe, que também costurava ao lado, a provocava estimulando suas habilidades manuais. Para isso, deixava cair alfinetes no chão e falava: “Filha, me ajuda, deixei cair minha caixa de alfinetes”. Lá ia a menina treinar suas mãos e pegar os alfinetes, colocando-os novamente na caixinha, superando suas limitações motoras. Essas mesmas mãos hoje tecem outro tecido, que narra a memória de seu corpo. E não se trata de uma obra autobiográfica, pelo contrário. Nazareth entende que, com o trabalho pronto levado para a parede, este passa a ter vida própria, seja como objeto dependurado na parede, seja pousado sobre o plano na condição de escultura. Para Nazareth, os objetos artísticos adquirem vida própria e passam a espelhar quem os observa, deixando então de ser a memória da artista para ser de todos.
Na exposição, as camisolas receberam bordados com frases que a marcaram tiradas do livro Destruição do pai, reconstrução do pai, de Louise Bourgeois. Textos que falam também sobre sua pessoa, sua vivência e história. “A minha infância nunca perdeu sua magia, nunca perdeu seu mistério e nunca perdeu seu drama.” Outras: “Para mim, a escultura é o corpo, meu corpo é minha escultura” e “O tema da dor é meu campo de trabalho”.

Antes Nazareth tinha dificuldade de falar sobre seu corpo, sobre as cirurgias, sobre todo esse processo que enfrentou por ter nascido com problemas físicos e ter passado por várias cirurgias reparadoras. A arte para ela serve como o gesto de despir-se de um processo longo e dolorido quando começou a lidar com as questões que a afligiam. Mesmo assim, fez prevalecer a estética e a plasticidade na materialidade dos trabalhos. Memória, afetividade, lembranças e desafios da feminilidade são expressos na arte que corta e machuca o olhar. Pode cortar-se acidentalmente com as lâminas enquanto confecciona os objetos e essas gotas de sangue são transformadas em gotas de bronze. As esculturas de metal dourado são inspiradas nas estruturas corretivas que usa para os dedos da mão. O balanço feito de acrílico e agulhas remete à infância e ao prazer de brincar, mas também nos diz da impossibilidade desse prazer. São elementos de certo conforto que permitem à artista se expressar a partir da dor do corpo.

Por sua vez, a arte de Krajcberg é a que grita e chora. Seu espanto se dá diante da destruição provocada pelo homem que devasta florestas, derruba árvores tocando- lhes fogo nos troncos, fazendo-as chorar e contorcer-se nos próprios troncos. A obra de Frans Krajcberg é o grito de dor escancarado e encontrado na beleza da natureza morta com suas formas, cores e sentidos. Era seu desejo captar a natureza em seu sofrimento. Começou a fotografar para ver melhor e mais de perto, muito além do simples olhar. Descobriu a cor nos pigmentos puros, nas cores que são matérias terrosas, e encontrou centenas delas com seus tons ocres, cinzas, marrons, verdes e infinitos matizes de vermelho.

Recolhia troncos mortos e com eles fazia suas esculturas, recolocando-as de volta na terra. Queria dar-lhes uma sobrevida. Poderia afirmar com generosidade aqui tratar-se de uma obra naïfï, se não romântica, em sua essência e maneira de pensar o mundo.

Krajcberg é o amante das florestas. É o ativista que grita pelas plantas e animais ao escancarar para o mundo a exuberância de sua obra ética feita de troncos, cascas, flores e folhas, demonstrando uma intimidade jamais vista com a alma das florestas e matas.

Polonês que escapou da Europa devastada pela guerra, quando fugiu de seu próprio passado para chegar ao Brasil, em 1948, e encantou-se com a natureza tropical. Impactado, participou da primeira Bienal Internacional de São Paulo, em 1951, com duas pinturas. São dessa época as pinturas mais antigas vistas nesta exposição. O conjunto, embora figurativo, é de folhagens de árvores que fazem lembrar o movimento tachista em vigor na Paris daquela época, onde viveu por alguns anos.

O terror que viveu o fez desacreditar no ser humano. Fugia dos homens do campo e da cidade, ao testemunhar o desmatamento e as queimadas nas florestas. Encontrou na natureza sua verdade, sua sobrevivência, sua força e o prazer de sentir, pensar e trabalhar sua essência. Tornou-se parte dela como a casca de uma árvore queimada. Desde então, o que fez foi denunciar com sua fala e sua arte a violência contra a natureza e a vida por meio de suas esculturas-troncos, de suas pinturas com formas naturais de galhos e flores, conferindo-lhes uma ancestralidade e até mesmo sugerindo sua fossilização como objetos e formas arqueológicos.

Onde está a arte de Krajcberg senão em seu conhecimento artístico, em seu ativismo e em sua forma de viver? A obra do artista pode ser apenas um tronco encontrado na natureza depois de uma queimada, moldado ou esculpido pelo fogo. Retorcidos, ocos, esbranquiçados na pele e negros por dentro, como o carvão.

A natureza e a obra são uma simbiose de formas, cores e sentidos. Frutos da observação das estruturas naturais das coisas, do espanto diante do barbarismo humano que destrói e cria cadáveres naturais. Do esqueleto de uma baleia que era observada de dentro de seu ateliê. As estruturas das folhas, dos troncos, das plantas e a formação dos manguezais são a materialidade que dá o contorno da obra. Tira da natureza a primeira matéria e forma de suas esculturas.

Frans Krajcberg naturalizou-se brasileiro, virou o maior ativista e artista defensor da natureza e das florestas brasileiras. O próprio artista tornou-se a simbiose com a natureza em sua presença e em sua ausência. Esculpia antes com os olhos ao transformar troncos de árvores em esculturas, depois desaparecia na mata fascinado pela natureza e pelas florestas. Sua obra é o grito do corpo contra a violência e contra o barbarismo que o homem pratica.

Sua obra espelha sua vida. Lutou durante quatro anos e meio na Segunda Guerra Mundial. Assistiu ao barbarismo humano na Europa e acostumou-se a brigar em defesa de seus ideais ao participar da tomada de Berlim. Mas, antes, tinha visto toda a família ser morta em campos de concentração nazistas. Encontrou na arte o meio de escape mais eficaz para defender sua memória e a natureza.

Mostra em suas pinturas, esculturas e gravuras a violência do homem contra o próprio homem na ambiguidade da beleza da natureza quando a destroem.

As duas obras, de Nazareth Pacheco e de Frans Krajcberg, são gritos contra a brutalidade destrutiva das matas e da reconstituição de um corpo, que nos fazem pensar e nos sentir ainda mais humanos.

Ricardo Resende
Diretor artístico
Galeria Kogan Amaro
São Paulo e Zurique

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Vistas da Exposição – Franz Krajcberg

Vistas da Exposição – Nazareth Pacheco

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Galeria Kogan Amaro
Löwenbräukunst, Limmatstrasse 270
8005 Zürich, Switzerland
info@galeriakoganamaro.com

A essência da floresta e da humanidade nas obras de Nazareth Pacheco e Frans Krajcberg

Com curadoria de Ricardo Resende, mostra reúne obras emblemáticas dos artistas, criações que seduzem pela beleza da matéria e forma de expressar realidades duras

“A beleza salvará o mundo. A frase do escritor russo Fiódor Dostoievski, nunca foi tão atual, pois é justamente quando tantas coisas vão mal em torno de nós que é necessário falar da beleza do planeta e do humano que o habita.” A afirmação do filósofo búlgaro Tzvetan Todorov exprime o cerne da exposição Dangerous beauty: The essence of forestry and humanity in the works of Nazareth Pacheco and Frans Krajcberg, que estreia em 1 de novembro, na unidade de Zurique da Galeria Kogan Amaro.

Com curadoria de Ricardo Resende, diretor artístico da Galeria, a mostra reúne trabalhos icônicos da paulista Nazareth Pacheco e do polonês Frans Krajcberg (1921 – 2017). Expoente de uma geração de artistas que despontou entre as décadas de 1980 e 1990, tempo em que o País entrava em ebulição com pautas relacionadas à mulher, Pacheco tomou sua condição feminina e sua biografia, em particular as narrativas relacionadas à história de seu corpo, como matéria-prima para suas obras tridimensionais. Sua obra é sobre a vida transformada em objetos belos, aparentemente adornos para o corpo, feitos com a matéria plástica – lâminas, agulhas, anzóis, sangue e cristais – para cortar e dilacerar a memória do corpo “retratado” na sua ausência física.

Krajcberg encontrou no Brasil o que precisava após perder toda a família para a II Guerra Mundial. Chegou no País em 1948 e firmou residência no Rio de Janeiro. É o amante das florestas, teve a natureza como principal fonte de inspiração para sua obra e a explorava através de formas e aspectos cromáticos em pigmentos naturais, esculturas e gravuras.  Tal qual um ativista que grita pelas plantas e animais, Frans escancara para o mundo a exuberância da sua obra feita de troncos, cascas, flores e folhas, revelando sua intimidade com a alma das florestas e matas.

Em comum, ambos os artistas tratam de questões audazes, perigosas, que seduzem pela beleza da matéria e pela forma de expressar realidades duras.  “A beleza na obra de Pacheco e Krajcberg é a expressão de temas dramáticos sem cair ou resvalar para o trágico e feio”, explica o curador. “Pelo contrário, não estão tratando da beleza simplista e inocente no sentido semântico da palavra, comumente associada aquela ideia de um pôr do sol bonito ao fim da tarde”, completa.

Sobre os artistas

Nazareth Pacheco cursou Artes Plásticas na Universidade Presbiteriana Mackenzie em 1983. Desde 1980, desenvolve obras tridimensionais relacionadas com processos vivenciados pelo corpo. Feminino, histórico, literal ou simbólico. Os artefatos que cercam o corpo são transmutados em objetos e instalações que a beleza e o brilho muitas vezes travestem como dor e o sofrimento. Frequentou o curso de monitoria da 18ª Bienal de São Paulo, sob a orientação do historiador e crítico de arte Tadeu Chiarelli, em 1985. Em Paris, frequentou o ateliê de escultura da École Nationale Supérieure des Beaux-Arts, em 1987. Em 1998, Nazareth participou da 24ª Bienal Internacional de São Paulo. Já em 2002, tornou-se mestra na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) com a dissertação Objetos Sedutores e orientação de Carlos Fajardo. Nos últimos anos, participou de diversas coletivas no Brasil e no exterior, além de ter frequentado o “Salon” de Louise Bourgeois em Nova York, entre 1999 e 2006. Nazareth vem expondo há três décadas em galerias e museus no Brasil e no exterior, tanto em mostras individuais quanto coletivas.

 

Frans Krajcberg (Kozienice, Polônia, 1921 – Brasil, Rio de Janeiro, 2017), encontrou no Brasil o que precisava depois de perder toda a família para a II Guerra Mundial. Chegou por aqui em 1948, quando residiu inicialmente no Paraná, partindo em seguida para o Rio de Janeiro. Antes disso, já havia estudado Engenharia e Carpintaria na cidade de Leningrado, na antiga União Soviética, e Artes em Stuttgart, na Alemanha. Em 1951, participou da 1a Bienal Internacional de São Paulo e, em 1957, naturalizou-se brasileiro. Participou, ainda, da XXXII Bienal de Veneza, recebendo o prêmio Cidade de Veneza, em 1964. Tem a natureza como inspiração. Krajcberg passou por um período importante na Europa (1958-1964) e em Minas Gerais (1964-1972), que o aproximou ainda mais da natureza, passando a explorar suas formas e aspectos cromáticos, através de pigmentos naturais. Depois passou a viver no sul da Bahia, no Sítio Natura, em Nova Viçosa, onde permaneceu até o final de sua vida, Nessa fase assumiu um trabalho com caráter mais escultórico, tendo a biodiversidade como fonte de inspiração e o que vem dela como matéria prima. É conhecido não apenas por suas esculturas, mas também por seus desenhos, gravuras e fotografias.

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