SÃO PAULO | ZÜRICH

 
SÃO PAULO | ZÜRICH

Uma lógica do adorno, de Lissette Lagnado | 1998

Uma lógica do adorno, de Lissette Lagnado | 1998
Zwei Arts

Fortuna Crítica
Nazareth Pacheco

Elogio do feminino, de Margarida Sant’Anna

Elogio do feminino, de Margarida Sant’Anna

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Entrevista para Regina Teixeira de Barros

Entrevista para Regina Teixeira de Barros

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O encantamento dolorido, de Miriam Chnaiderman | 2012

O encantamento dolorido, de Miriam Chnaiderman | 2012

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Fascículos de Arte Contemporânea, entrevista para Tadeu Chiarelli | 2001

Fascículos de Arte Contemporânea, entrevista para Tadeu Chiarelli | 2001

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Cristais de dor, de Paulo Cunha e Silva | 2000

Cristais de dor, de Paulo Cunha e Silva | 2000

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O corpo em construção, de Moacir dos Anjos | 1999

O corpo em construção, de Moacir dos Anjos | 1999

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Vestido de Baile, de Regina Teixeira de Barros | 1999

Vestido de Baile, de Regina Teixeira de Barros | 1999

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O sofrimento pelo belo, de Rejane Cintrão | 1999

O sofrimento pelo belo, de Rejane Cintrão | 1999

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Uma lógica do adorno, de Lissette Lagnado | 1998

Uma lógica do adorno, de Lissette Lagnado | 1998

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Uma realidade… dilacerante, de Tadeu Chiarelli | 1997

Uma realidade… dilacerante, de Tadeu Chiarelli | 1997

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O único, O mesmo, O A – Fundamento, de Maria Alice Milliet | 1996

O único, O mesmo, O A – Fundamento, de Maria Alice Milliet | 1996

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Nazareth Pacheco, de Regina Teixeira de Barros | 1996

Nazareth Pacheco, de Regina Teixeira de Barros | 1996

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Espelhos e sombras, de Aracy Amaral | 1994

Espelhos e sombras, de Aracy Amaral | 1994

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O corpo em construção, de Ivo Mesquita | 1993

O corpo em construção, de Ivo Mesquita | 1993

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O corpo como destino, de Maria Alice Milliet | 1993

O corpo como destino, de Maria Alice Milliet | 1993

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Entre o tato e a visão, de Elisabeth Leone | 1992-1993

Entre o tato e a visão, de Elisabeth Leone | 1992-1993

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Objetos dependentes, de Tadeu Chiarelli | 1990

Objetos dependentes, de Tadeu Chiarelli | 1990

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Os objetos de Nazareth Pacheco, de Stella Teixeira de Barros | 1989

Os objetos de Nazareth Pacheco, de Stella Teixeira de Barros | 1989

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Uma Lógica do Adorno

Lissette Lagnado

A produção de Nazareth Pacheco corresponde a um processo de individuação: assimilar questões próprias, relacionadas a operações a que se submetera para efetuar correções estéticas devido a malformações congênitas. Não é difícil imaginar que, a partir dessa reflexão autobiográfica, o questionamento se tenha estendido a uma dimensão sociológica: a manipulação do corpo, da mulher em particular, na sociedade contemporânea. Esses dois momentos encontram-se reunidos na produção exposta pela XXIV Bienal de São Paulo. Sob a regência das ressonâncias culturais da antropofagia, a mostra critica noções de etnocentrismo, geopolítica e logocentrismo, de Montaigne à recente engenharia genética. Inserido nesse contexto, o depoimento de Nazareth fincou um argumento contundente: a insuficiência da Razão diante da barbárie civilizatória.

Trata-se de um conjunto de quarenta adornos produzidos ao longo de dois anos, agrupados pela curadoria de maneira a formar uma coleção. Mas como denominar de “colares” essas hipóteses ornamentais, feitas de agulhas de sutura, lâminas de bisturi e giletes, entremeadas de miçangas e cristais? Além do fato de privilegiar uma parte do corpo, elevando o pescoço a uma região fetichista, é curioso observar que a veia jugular se situa perto da garganta e que, portanto, qualquer corte seria fatal. A artista aproxima perigosamente o prazer e a agressão até uma fusão dos dois instintos. Ornatos para o corpo constituem, a princípio, símbolos de identidade cultural que remetem a práticas e costumes do calendário das festividades. Sendo os colares de Nazareth de uso não recomendado para a integridade do corpo, os dados biológicos de seu sujeito se impõem à interpretação. Percebe-se nesse gesto uma marca essencial para estudar a identidade artística contemporânea: a dissolução de fronteiras entre experiência interior e rituais coletivos, entre natureza e cultura.1

O trabalho de Nazareth transcende a mera confissão ao tangenciar a análise antropológica. Sua necessidade de arquivar uma trajetória pessoal passou a incorporar um duplo sentido. Arquivar: 1. memorizar acontecimentos; 2. suspender o inquérito sobre o presente. Sabemos que os arquivos têm o poder de conservar documentos históricos, mas “arquivar” é também retirar de circulação. Apresentados de forma museológica, unificados e “classificados” dentro da assepsia proporcionada por pequenas caixas de acrílico, tais enfeites parecem vestígios de uma cultura distante. As vitrines exercem a função de domesticar o contato entre nosso olhar e a obra, projetando-a para uma comunidade que teria pertencido a uma história longínqua, de latitudes desconhecidas e, conseqüentemente, irracionais. Afinal, como compreender a lógica da dor dentro do adorno?

Num contragolpe irônico, a discussão do Belo volta a ter pertinência como valor de verdade e vontade de transformar o mundo. Hegel já mencionava que a obra de arte é reprodução e reflexo do sujeito: “Através dos objetos exteriores, ele busca encontrar-se a si mesmo. Não se contenta em permanecer tal como é: cobre-se de ornamentos. O Bárbaro pratica incisões em seus lábios e orelhas; tatua-se. Todas essas aberrações, por mais que sejam barbáras e absurdas e até mesmo contrárias ao bom gosto, causadoras de deformações ou perniciosas, só têm um objetivo: o homem não quer ficar tal como a natureza o fez”.2

Criar artifícios para o corpo significa então pleitear um acréscimo de beleza. No entanto, esse ganho muitas vezes inflige uma série de sacrifícios. Sacrifício consentido, cabe ressaltar, alimentado pela mídia e as indústrias farmacêuticas que nunca proferiram tantas promessas de felicidade. A questão crucial que sustenta esta fase da obra de Nazareth Pacheco reside no questionamento das normas que definem o bem-estar do organismo. Afinal, o que é um corpo saudável se este só consegue responder a expectativas funcionais? Na realidade, o que está em jogo não é diretamente um ideal estético, questão mais evidente nas plásticas de Orlan, mas uma negociação sem fim entre saúde física e saúde mental.

Reunidos na sintaxe do colecionismo, os adornos acabam formando um sistema, graças a um trabalho de perlaboração que os permitiram passar do registro privado à dimensão pública. Antes disso, porém, a dor foi o depósito compulsório para um ajuste com a volta mítica às origens. Nesse contrato, a sedução é uma moeda capaz de desmistificar o medo mais arcaico: o corte do real e a vivência da Ferida.

1  “… os fundamentos éticos e estéticos, com repercussão hoje, recorrem à história recente que vai de Eva Hesse a Doris Salcedo. Nesse sentido, a recuperação da autobiografia e a abertura dos arquivos ocupam um lugar central: dos ‘diários’ bordados de Leonilson à obra política de Rosângela Rennó…”. Lisette Lagnado, “Em busca da identidade da Geração 90”, in ARCO’97, boletim informativo da Feira Internacional de Arte Contemporânea, Madrid, dezembro de 1996, pp. 4-9.

2  Cf. “Arts plastiques, beauté, vérité”, in Esthétique des arts plastiques (Paris: Hermann Éditeurs des Sciences et des Arts, 1993), p.43.