A Bird Called Innocence – Samuel de Saboia

A Bird Called Innocence – Samuel de Saboia
Rafael Kamada

Samuel de Saboia
A Bird Called Innocence

20 abr 2020

Abertura
18 abr, 18h–20h


Galeria Kogan Amaro
Löwenbräu-Kunst. Limmatstrasse, 270
Zürich CH-8005 – Switzerland

Poderosas criaturas que transitam entre a arte abstrata e figurativa são as protagonistas da obra do artista brasileiro Samuel de Saboia. Expoente no cenário atual das artes visuais do País, ele utiliza-se de um ímpeto visceral para realizar pinturas em acrílico e a óleo em diferentes escalas.

 

A produção de Samuel de Saboia sempre esteve atrelada à espiritualidade do artista. Assim como o letoniano Mark Rothko (1903-1970), que encontrava em um estado meditativo o ímpeto para sua produção, chamada pelo crítico americano Clement Greenberg de Colorfield Painting, Saboia também se depara com campos cromáticos por meio da conexão pessoal que estabelece com sua própria natureza.

As figuras que emergem das telas possuem movimento e parecem estar em uma transmutação orgânica, assim como os trabalhos do fluminense Flávio de Carvalho (1899-1973), um dos grandes nomes da geração modernista brasileira e que também tem suas obras expostas atualmente na Galeria Kogan Amaro Zurique. Com referências claras ao expressionismo, tanto Saboia como Carvalho deformam a realidade para expressar de maneira subjetiva a natureza e o ser humano, colocando o sentimento como ponto crucial da produção. Ambos produzem obras que se relacionam com o universo fantástico, com a presença de personagens conturbados, muitas vezes até fantasmagóricos. Diferentemente de Flávio, no entanto, Samuel utiliza-se muitas vezes da ponta dos dedos e a palma das mãos para dar corpo e vida às telas, desenvolvendo volumes e deslocamentos. Além das mãos, também busca trazer objetos que lhe possibilitem a escrita em seus trabalhos.

A poética utilizada por Saboia também conversa muito com os rabiscos livres de Cy Twombly, que encontrava em frases e versos o sentido para unir as composições pictóricas. Como o norte-americano, o brasileiro tem se aproximado de uma espécie de „simbolismo romântico“, em que figuras são complementares a frases e pensamentos colocados inteiramente nas obras. A busca por relações humanas de maior cunho pessoal, dispersa em tempo de ataques digitais e do constante cancelamento do indivíduo, faz a palavra inocência e a figura de uma ave as chaves para entender o universo do artista.

Tal pássaro já é conhecido na produção de Saboia. A figura simboliza o chamado Guardião, mensageiros de Deus descritos no Velho Testamento. Provido de asas, esse ser vivente, como é chamado pelos seguidores do livro sagrado, serve os seres humanos nos momentos de luz e sombra – por isso, dizem, traz os dois lados dentro de si. Em cada crença e em cada povo, ganham novos nomes, fazem aparições de diferentes maneiras em uma eterna transmutação.

Não é incomum, por outro lado, encontrar personagens nas telas com certa semelhança física a Saboia. A referência ao corpo negro, jovem e queer, títulos definidos pelo próprio artista a seu respeito, faz parte do imaginário que permeia sua trajetória e produção.

 

Ana Carolina Ralston
curadora

 

Sobre Samuel de Saboia

Samuel de Saboia nasceu em 1997 no Recife, capital do estado de Pernambuco, na região nordeste do Brasil. Morou até a adolescência na cidade do Recife, de onde traz a natureza exuberante e a luz intensa como fortes referências para o seu trabalho. Autodidata, começou a carreira ainda muito jovem, aos 15 anos, em 2012, como parte de uma coletiva no espaço Casarão, no Recife. A partir de então integrou algumas mostras, entre elas Paredão, no Centro Cultural São Paulo (2017) e The Skin I’m In, na Space 776, em Nova York (2018). Saboia também já realizou exposições individuais em galerias e instituições, como Beautiful Wounds (2018), na Ghost Gallery de Nova York, UnAmerican Beauty (2019), na Ghost Gallery de Los Angeles, Guardiões (2019), na Galeria Kogan Amaro São Paulo, e Deus em Mim, na Fama Museu, em Itu/São Paulo.