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Ecce Homo

São Paulo
15 Fev – 23 Mar 2019

Ecce Homo
Alex Flemming

Ecce Homo
Trabalhos
Vistas da exposição
Alex Flemming

Galeria Kogan Amaro São Paulo
Alameda Franca, 1054
Jardim Paulista, São Paulo, SP
info@galeriakoganamaro.com

As palavras depositaram tamanha
confiança no espírito crédulo dos
homens, que estes acabaram
por lhes dar as costas.
Sérgio Buarque de Holanda.

 

ecce hommo, Alex Flemming

Flemming não tem uma turma de artistas. Nem transita do mesmo modo em um grupo restrito de curadores. Mas faz necessário ter sempre um crítico para debater o fenômeno de uma obra caudalosa, produzida ao longo de mais de 40 anos.

Flemming tem uma obra “suja”. Vem suja da rua. Traz, na sua pintura, a sujidade da arte do grafiteiro dos anos 1970 ao apresentar as máscaras usadas para grafitar nas suas telas. Esteve entre os pioneiros Alex Valauri e Hudinilson Jr. Fez arte em um dos momentos mais ferozes da política brasileira: os dez anos de vigência do ato institucional número 5, conhecido como AI5. Precisou coragem. Carrega hoje, como bagagem e cicatriz dessa época, uma consciência leve – nada mais do que isso. Sua obra está espalhada por essas quatro décadas.

A sua veia política vem contaminada pelas fotogravuras do mesmo período dos grafites. Bem no início de sua carreira artística, fez sua série mais emblemática e pertinente para os dias atuais. “Natureza Morta” lhe rendeu como reconhecimento uma bolsa de estudos da Fundação Fullbright e lhe permitiu estudar no renomado Pratt Institute Manhattan de Nova Iorque. Essas fotogravuras foram realizadas na segunda metade dos anos 1970, reproduzindo as cenas de tortura do regime militar vigente à época. Era o fim do momento mais repressor e violento da ditadura militar brasileira. Vem dessa série a retratação do corpo humano na condição de violado, desfigurado, sofrido e mesmo morto.

O corpo masculino será uma constante em sua obra. Passados mais alguns anos dessa produção das fotogravuras, o corpo masculino retorna sensual, sexual, erótico e politizado. Mas ainda que retrate corpos viris e bonitos, esses ainda são vítimas de uma sociedade conservadora e repressora, com um olhar enviesado para esse tipo de produção. Causam estranhamento as pinturas feitas com lona vinílica, que dão um aspecto artificial e frio.

Olhando para esse conjunto de obras retrospectivamente, nos vêm o questionamento: é possível uma obra de arte ser simples em sua execução e, ao mesmo tempo, provocativa? Mais ainda: o trabalho poderia ser simples na estética e na mensagem e, mesmo assim, perceber e apreender o seu tempo?

A resposta pode ser afirmativa. A simplicidade traduzida não significa necessariamente que a experiência artística que a antecedeu seja simplista na sua essência, ideia e sentidos.

É o que pode-se apreender do trabalho mais recente de Alex Flemming, a série ecce hommo.

Os trabalhos de arte simples são, portanto, os que mais atingem uma estética igualmente simples e muito mais eficiente na mensagem. Poderia também afirmar que são os mais sensíveis, os que mais tocam o observador e, ainda, nos dão a chance da experiência total, plástica e estética. É o artístico em seus níveis mais profundos.

No entanto, é preciso disciplina para fazer arte, diz Flemming em entrevista à crítica de arte Angélica de Morais. “O artista também deve saber pintar. O mesmo com a fotografia. Tem que conhecer o funcionamento da máquina fotográfica para fotografar”, afirma.

Flemming valoriza o rigor, o embate e a persistência para a realização de uma obra. Nada é aleatório. O artista tem que criar para fazer de sua obra um “rio caudaloso” que carrega substâncias em um mar de água.

Ao olhar para o conjunto de sua obra, percebemos uma produção espiralada, sempre em expansão, onde experimenta as linguagens, os materiais, as formas, as técnicas, as imagens, o texto e as questões conceituais (políticas).

Então, “eis o homem”, teria dito Pôncio Pilatos em latim, em momento crucial para a humanidade, ao entregar Cristo aos judeus.

Com esse gesto, Pilatos entregava para o povo judeu e lavava as mãos para o destino que teria o homem de Nazareth. Teria dito “Ecce Hommo!”

Ecce Hommo é o título do mais recente trabalho do artista, feito de lavatórios coloridos encontrados em “cemitérios” de louças sanitárias que receberam desenhos gravados. A produção aconteceu durante um mês intenso de trabalho no ateliê central da Fábrica de Arte Marcos Amaro, a FAMA, em Itu (SP).

Flemming, da mesma maneira como escreveu o filósofo Fiedrich Nietizsche em seu livro autobiográfico Ecce Homo – Como se chega a ser o que se é, de 1908, trata do instinto da decadência do homem. Desmascara os seus esconderijos subterrâneos do dito mundo idealizado, subvertendo-o da sua normatividade mentirosa que vive mais de imaginações sociais, religiosas e políticas falaciosas, doentes e decadentes, que corrompem e escamoteiam as realidades com o que há de mais temível e problemático.

Os lavatórios de Flemming são grandes, bonitos e feitos de material cerâmico resistente, atestando suas qualidades que perduram no tempo. O artista faz desenhos com esmeril – uma ponta de diamante é o que risca essa matéria dura. O gesto de gravar transforma as pias em uma espécie de monotipias orgânicas, de rara beleza em seu conjunto colorido que pode ser visto na exposição.

É desenho preciso gravado na cerâmica que rompe com a camada de tinta colorida que cobre essas pias, expondo a materialidade em traços brancos debaixo das cores esmaltadas, vivas e brilhantes.

São desenhos gravados sobre pias sanitárias, recipiente onde se lavam as mãos. E, dessa incisão, surge o desenho de linhas brancas que vai destacar-se no esverdeado, amarelado ou acinzentado dessas cubas. Os desenhos foram feitos a partir de mãos fotografadas de pessoas próximas e amigos, enquanto criava.

Fotografar e gravar, fotografar e pintar, fotografar e desenhar, esse é o processo do artista. Flemming funciona como uma máquina fotográfica. Tem cabeça de fotógrafo até quando pinta, desenha ou grava. Tem certeza de ser figurativo ao retratar o visível em época de arte conceitual e desmaterializada.

Fotografa mãos posadas. Grava o gesto do cotidiano em que se lava as mãos da imundice que carregamos. Lavar as mãos é o gesto que registra em sulcos nas camadas pictóricas das pias. Faz referência ao cenário político brasileiro, assolado pela corrupção e malfeitos da sociedade mancomunada com os políticos.

Simbolicamente, nesse trabalho, Alex Flemming trata daquela sujeira oculta encontrada na alma humana. A que fica escondida e é inerente ao ser humano. “Da falsa moral”, como escreveu o artista Leonilson em um de seus bordados. Da falsa religiosidade, aquela orientada pela hipocrisia que explora a fé alheia. Da falsa moralidade política, aquela corrupção que assola a sociedade contemporânea corrompida pelo desejo desenfreado do possuir.

Desejo que resulta na corrupção moral e material desenfreada. É o desprezo pela vida humana e o apego a uma vida material fantasiosa.

O trabalho, de certo modo, desmascara esse antagonismo moral entre o bem e o mal da vida social, feita hoje de perversão, de decadência, de fraquezas, de mentiras, do escárnio, da negação e da imoralidade.

No gesto poético de lavar as mãos, busca-se encontrar a pureza: a limpeza não só das mãos, mas também da moral e da sanidade mental. E fugir dessa realidade tenebrosa que avassala o país.

Desde 2016, de forma mais pronunciada, o tecido que permeia a sociedade brasileira vem sendo destruído e corrompido de forma assustadora. Parece não ter fim o sentimento de impotência sob a égide da corrupção política.

Mas, apesar de todo esse discurso encontrado na obra de Alex Flemming, observa-se uma preocupação estética e uma diversificação plástica inusitada com essas pias. Uma obra política sem ser panfletária, mas que não foge à realidade do seu tempo presente, sendo também poética.

Na sua maneira de expor as pias, elas funcionam como janelas na altura do peito. O próprio artista faz alusão a uma antiga lenda em que se atribui à Vulcano, deus das habilidades técnicas, a criação de um ser humano que, por erro genético, faltaram (segundo parecer do deus Momo) algumas janelas à altura do peito.

Abrindo-as, seria possível ver os desejos e pensamentos humanos, suas mentiras e verdades. Se tais janelas existissem (e existem), os seres humanos poderiam se comunicar melhor e reagir (através da arte, as tais janelas a que se refere Momo) juntos à tirania de quem censura a livre troca de ideias, conhecimento e sentimentos.

As pias de Flemming servem como essas janelas das quais os seres humanos foram tolhidos para refletirmos sobre as dores, impasses e descaminhos políticos do Brasil atual, à beira do caos social.

Os artistas, poetas contemporâneos, devem manter sempre fixos os olhares e os sentimentos para o seu tempo (cito o filósofo italiano Giorgio Agamben) e expressar com suas obras, não só as luzes, mas principalmente, não se esquivar do escuro. Ver através das trevas para perceber os descaminhos que não se deve tomar justamente no escuro.

Manos pulite! A plasticidade de Alex Flemming chega na Emmathomas Galeria.

Ricardo Resende
Diretor Artístico da Emmathomas Galeria.

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Vistas da exposição

Alex Flemming

Alex Flemming é pintor, escultor e gravador. Nasceu em 1954 em São Paulo e, desde 1993, reside em Berlim, na Alemanha.

Entre 1972 e 1974, frequentou o curso livre de cinema na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Cursou também serigrafia e gravura em metal. Na mesma década, realizou curtas-metragens e participou de festivais variados. A partir dos anos 1990, realizou intervenções em espaços expositivos e pinturas de caráter autobiográfico. Passou a recolher móveis para utilizar em seus trabalhos, aplicando sobre eles tintas e letras ou textos.

Apesar da vivência na Alemanha, sempre expôs no Brasil. Em 1998, realizou painéis em vidro para a Estação Sumaré do Metrô de São Paulo, com fotos de pessoas comuns, às quais sobrepõe com letras coloridas trechos de poemas de autores brasileiros.

A representação do corpo humano e os mapas de regiões em conflito estão na série Body Builders (2001-2002). Também de 2002, a série Flying Carpet, que toma como ponto de partida o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. Já a série Anaconda, de 2016, uma reflexão plástica sobre os horrores da ditadura do Estado Islâmico e o seu cruzamento com as tradições culturais do Oriente.

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