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O Corpo Barroco | 2011

O Corpo Barroco

“Sempre se pretende que a imaginação seja a faculdade de formar imagens. Ela é antes a faculdade de deformar as imagens fornecidas pela percepção, é sobretudo a faculdade de nos liberar das imagens primeiras, de mudar as imagens”. Bachelard

O Corpo Barroco não nomeia esta exposição, titula apenas um dos trabalhos presentes, mas por sua capacidade singular de sintetizar as questões encarnadas em cada obra ele é a via de entrada deste texto e da mostra individual de Carlos Mélo. Por sua vez, o todo da mostra é uma espécie de cume de um trajeto, um sumário amadurecido das discussões que movem este artista. A pista mais óbvia é a própria forma elegida, o anagrama, que já evidencia um enxugamento das palavras que constantemente ocorriam em suas obras do início da década de 2000 por meio dos diagramas. Palavras e imagem emparelhavam-se formando dípticos para mapear sentimentos e irradiar sentidos e não para canalizar interpretações. A inversão das palavras, engendrada pelo recurso do anagrama, gera composições que vão enriquecendo a potência de sua proposição, estratégia indubitavelmente mais sofisticada. E estes enunciados estão por si, não se sustentam em nenhuma imagem e nem dão sustentação a qualquer imagem.

Agrada-me de sobremaneira a expectativa que estas palavras de ordem suscitam nos visitantes e seu conseqüente desmanche com o confronto com o que se apresenta. Não há referências explícitas ao Barroco histórico. Nem exuberância, nem rebuscamento, nem dramaticidade pungente e muito menos cromofilia. Todavia, subjazem alusões transversais a esta forma de sentir o mundo. Podemos entender a partir do trabalho de Carlos Mélo o Barroco como retomada de consciência do corpo em várias dimensões e tudo o que isso acarreta no embate com uma moralidade opressiva. A fricção de contrários que expressa desassossego e o enfrentamento da finitude e da imperfeição. Sim, as tensões dos antagonismos sublinham os trabalhos e por vezes sentimos uma sensação de familiaridade (até mesmo deja-vu) e ao mesmo tempo de estranhamento com as imagens construídas, mas o resultado é ambigüidade e não oposição. A limpeza e a mudez sugeridas nas fotos são uma aparente contradição com o que o Barroco representava. Não se trata de entulhamento de detalhes ou ornamentos, mas justamente abarrotamento de significados e densidade dos simbolismos.

Porém lembremos de que estamos diante de um anagrama e Barroco pode se transformar em barro oco. O Corpo Barroco pode também ser Corpo oco barro. Tanto o barro quanto o oco carregam matizes de voltagens semânticas. Podemos seguir por uma via universalista e rememorar que o barro tem uma conotação religiosa muito forte (Como é notório o dito bíblico afirma que o homem veio do barro) e sua utilização para se construir artefatos é milenar e comum a muitas civilizações. Outro caminho nos leva a identificar o lugar de pertença de Carlos Mélo: a cidade de Riacho das Almas, nas cercanias de Caruaru, cidade bastião de marca identitária nordestina muito significativa, em que o barro é matéria de expressão concretizada em bonecos e esculturas. O mesmo procedimento de universalização e de localização pode ser adotado com a palavra oco. No dicionário significa vazio por dentro (poderia ser uma citação indireta ao conceito de corpo sem órgãos de Gilles Deleuze e Félix Guattari?) e também fim do mundo (novamente uma menção ao sentimento de deslocamento e de desterritorialização após o ato migratório do artista para a capital de Pernambuco). O famoso painel de Cícero Dias Eu vi o mundo… Ele começava no Recife não nos deixa esquecer de que enxergamos a existência e o mundo a partir de nosso local de origem e formação. Entretanto, o mundo não se encerra no local de origem, já que nossa perspectiva vai se adensando e se desdobrando com a incorporação de novos repertórios, paisagens e experiências no avançar da vida.

Esta mostra parece ainda apontar para um reencontro de questões que estavam sutilmente encobertas na produção de Carlos Mélo nos últimos anos: a espessura catártica de seu corpo.  Tendo escolhido a performance como eixo de investigação principal sobre o corpo, o artista dedicou-se ultimamente a explorar as múltiplas formas desta linguagem, em especial a transferência do fazer performance para atores ou pessoas dirigidas por ele. Esta vertente de experimentação está presente neste apanhado, mas impera sua presença física. Desta maneira, fica ainda mais patente o desejo de performance, encontrado até mesmo nos desenhos. Importante salientar que a performance parece ser compreendida por Mélo como mecanismo ritual, uma forma de expurgar o que o desassossega, de materializar imagens internas e sentimentos, por vezes selvagens, por outras enformados na cultura do contemporâneo. Performance como vestígio. O tom ritualístico é enaltecido na sugestão de oferenda de um cão e da comida no dia da abertura e numa seqüência de imagens que insinua um diálogo com a morte. Não é demais lembrar que oferenda também significa oferecer, inspirar um sentimento e agenciar. Por sua vez oferecer pode ser desmembrado como apresentar sem proteção[1]. Eu apenas acrescentaria apresentar-se sem proteção. Não é exatamente isso o que Carlos Mélo faz com este conjunto de trabalhos? Desnudar-se em todos os sentidos? Expor cruamente quais são suas intencionalidades artísticas? Neste caso, o vídeo Nova Arte Moderna, feito em 2004, é exemplar em tanto oferecer um contraponto no tempo a este rol de discussões como em evidenciar sua ética perante o corpo e a imagem. A tentativa de gerar formas com seu corpo no enquadramento precário do vídeo transparece uma singeleza de meios e uma complexidade de resultados que contrasta fortemente com a normalização e o conseqüente esvaziamento do uso do corpo e das tecnologias em boa parcela da produção artística  atual. Observando o entorno, nota-se que a jornada informacional e tecnológica dos últimos anos tem desembocado numa horizontalização de questões que superficializa a produção. Voltando a observar Carlos Mélo fica evidente que seu percurso tem firmado um lugar dissonante na Arte Contemporânea recente do Brasil.

Cristiana Tejo

Recife, março de 2011

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