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Por quem os sinos dobram, de Alberto Tassinari | 2010

Por quem os sinos dobram

Alberto Tassinari

Marcia Pastore busca sempre algo de fisionômico, embora muitas vezes só aludido, ou retorcido, e até mesmo escondido, em suas esculturas que também procuram sempre uma junção forte das formas com os materiais.

No início da década de 90, contornos de metal comprimiam e tensionavam materiais mais informes como areia e asfalto. Podia-se imaginar um peixe, um barco, quem sabe?, nessas esculturas, em geral, como que espalhadas pelo chão.

Numa série posterior, será o ferro e a parafina que se tensionarão para aludir a objetos que poderíamos manusear como se fossem um machado, uma bandeira, um tacape. E de novo: quem sabe?

As alusões parecem sumir quando Márcia se dedicou a trabalhar com partes do corpo humano. Mas então as partes se confundem. Um joelho e um cotovelo têm lá seus parentescos. E por aí se vai. Os materiais e as formas, nessas esculturas do corpo humano, já não são, como antes, postos em contraste, como uma cinta de ferro que contornaria a areia, mas encontram no bronze e outros materiais uma união que possibilita as mais diversas manobras de formação e deformação das figuras.

Há algo de circense nessas formas deformadas de Márcia Pastore. São meio cômicas, mas igualmente um tanto espantadas e espantadoras. E entre o sorriso e o leve susto também se percebe o quanto o corpo humano é aparentado ao dos animais. Um pedaço de um mamute, sabe-se lá, teria afinidades com uma perna um tanto mais contornado do que o desejo almejaria. Ou não. Sabe-se lá.

De esculturas individuais e a preocupação com o modo de juntá-las numa exposição, Marcia Pastore passou a pensá-las em conjunto em instalações onde o corpo (ainda humano?) surge caindo como sacos (e são mesmo sacos de cal) ou tentando erguer-se para a postura ereta. De novo o cômico, o estranho e o animalesco se enovelam numa rara mistura de aspectos que dá o que pensar sobre os significados que tranquilamente atribui-se ao que somos. Entre sensuais e caricatos, entre serenos e assustadores, e entre belos e animalescos, em lugares não bem definidos, é que talvez nos façamos humanos.

Em “Dobros”, a poética de Márcia Pastore se repõe por inteiro. Mas aqui não são apenas as chapas de metal sinuosas que lembram nossas sinuosidades. Elas também nos refletem como que num trem fantasma. Vemos na obra, ao percorrê-la, o que víamos em suas obras anteriores, mas também na obra entramos e nela nos figuramos. E dos modos mais diversos. Contrapondo duplos (dobros), certo e avesso, claro e escuro, anteparos e frestas e até mesmo visão e audição, podemos nos medir, remedir, estranhar, rir, indagar, e assim sem fim, em meio a esses espelhos enormes em que os sons aludem agora a algo como um sino. E os sinos, à distância, também dobram, batendo daqui e dali, ecoando o espaço no espaço. Entre nascer e morrer, entre seus sons, tudo se passa. O que é óbvio, mas assusta. Sereno, mas risonho. Belo, mas estranho.

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