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Estandarte

Zurique
27 Nov, 2021 – 05 Fev, 2022

Estandarte
Luisa Almeida

Estandarte
Trabalhos
Vistas da Exposição
Luisa Almeida

Galeria Kogan Amaro Zurique
Löwenbräukunst, Limmatstrasse 270
8005 Zürich, Switzerland
info@galeriakoganamaro.com

Estandarte é a primeira individual de Luísa Almeida fora do Brasil, e apresenta um corpo de trabalho único, criado e produzido para a exposição durante o programa de residência da FAMA – Fábrica de Arte Marcos Amaro, em Itu, São Paulo, em 2021. A mostra compreende uma série de nove gravuras sobre algodão cru que servem como “estandarte”, também conhecido como banner, usado em diversos eventos brasileiros ligados a tradições religiosas ou populares. O objeto geralmente ocupa um lugar de destaque em procissões e festejos, exatamente para que as atenções se voltem para seus dizeres e para os temas que menciona. Os diferentes contextos em que aparece representam interesses coletivos e de ordem pública. É o estandarte que inicia a procissão e guia o caminho dos que dela participam. Assim, exerce diferentes funções dentro de um mesmo contexto, tal sua importância. E é precisamente o Estandarte que abrirá os caminhos para a incursão de Luísa à Europa.

A artista é natural de Minas Gerais, um estado marcado por seus ritos religiosos e culturais, que viveu seu apogeu no período colonial, quando detinha inigualáveis riquezas naturais – especialmente o ouro –, atraindo assim diversos exploradores e conquistadores em seus primórdios. O legado mineiro inclui alguns dos principais expoentes do barroco brasileiro, que povoa o imaginário e as tradições de seus habitantes. A herança da terra natal aparece de diversas formas em seu trabalho: seja ao fazê-lo, executá-lo e construí-lo com suas próprias mãos e gestos, seja através da seleção de elementos estéticos nele incorporados. Estes não são empregados pela artista aleatoriamente, como meros ornamentos, e sim como simbologias que vem fazendo parte da história do regionalismo brasileiro por décadas.

Deste modo, Estandarte transpõe visualidades autênticas para o contexto europeu como parte de um emergente diálogo intercultural, processo que teve início no século XVI. Foi principalmente no século XVII, com a ocupação de parte do território brasileiro pela Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, que um processo planejado de documentação artística e etnográfica teve início, a partir a chegada de artistas como Frans Post (1612-1680) e Albert Eckhout (1610-1665). Uma série de registros destes artistas foram transformados em tapeçarias pela Gobelins Manufactory. Assim estabeleceu-se a circulação de imagens holandesas do Brasil na Europa, conforme foram sendo exibidas e distribuídas às casas reais e à nobreza. Esta representatividade evoluiu, sendo incorporada ao repertório conceitual da teoria da arte da segunda metade do século XVIII em diante. O pitoresco alcançou autonomia como cânone artístico formal, sendo compreendido como um tipo de composição diferente do paradigma clássico da beleza. Inicialmente ligado à composição ideal da natureza, o termo passou rapidamente a designar não apenas um amplo conjunto de temas e estilos, mas também de identidades étnicas. No início do século XIX, tornou-se uma fórmula comum, usada em publicações de artistas-viajantes. Um ótimo exemplo é o álbum do pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), Viagem pitoresca e histórica do Brasil (Paris, 1834/39), no qual o autor tentou associar seu trabalho a um subgênero específico da literatura de viagem, incorporando o pitoresco em sua obra como prática importante para a compreensão e documentação da realidade que encontrara.

No início deste processo intercultural não estava estabelecido exatamente um diálogo, e sim certas imposições e relatos criados através de uma narrativa de mão única, que não fora concebida sobre alicerces equânimes. O europeísmo foi apresentado como novo parâmetro ao Novo Mundo. A imagem do novo mundo foi construída e transposta por pesquisadores, cientistas, religiosos e inúmeros artistas itinerantes que, de maneira curiosa, mas também superficial, registraram e relataram o dia-a-dia da Terra Brasilis em suas obras. Desde então, este legado faz parte de inúmeras coleções de instituições e museus europeus, servindo como ponto de partida para o diálogo intercultural.

Trabalhos

Veja todas

Estandarte acontece em um novo momento histórico no Brasil. O país está prestes a celebrar o bicentenário de sua independência e, no campo da cultura, o centenário da Semana de Arte Moderna de 22. Foi necessário um século e um longo processo de reconhecimento, percepção, assimilação, integração e exploração para chegar à essência da brasilidade. É o momento de ampliar nosso debate, nossa compreensão e nosso discernimento. O desafio é encontrar respostas e visibilizar questões recorrentes em nosso tempo. Neste contexto, como representação autêntica e emergente, Estandarte nos guia em direção à compreensão de questões socioculturais. Luísa Almeida nos apresenta empoderadas protagonistas femininas do cotidiano brasileiro, dispostas a defenderem a si mesmas e seu lugar na sociedade. Através da visibilidade proporcionada pela artista, aprendemos a olhar o outro. Devemos perceber, no sentido de observar para começar a ver, rever, reparar e cuidar de sua participação na sociedade. Elas não são fictícias.

As mulheres aqui representadas têm nomes e rostos verdadeiros. Fazem parte do universo de Luísa, e por ela foram convidadas a serem retratadas em tamanho real. Por outro lado, essas mulheres compõe um universo paralelo, encenado, distante da realidade. Representam o legado de uma pessoa a ser cultivado através de sua imagem. O estandarte mantém viva a memória dessa existência passada. A imagem é centrada dentro de uma margem ornamentada que serve como moldura para preservar e enfatizar a pessoa retratada. Segundo a artista, “Imagens de flores e símbolos de proteção resgatam elementos da estética do Nordeste brasileiro, local onde a gravura também tem raízes profundas. Estes ornamentos prestam uma sutil homenagem às mulheres que fizeram parte do cangaço, um controverso movimento histórico antigovernista do fim do século XIX e início do século XX. As mulheres posam em frente a um fundo escuro e monocromático, de maneira que as nuances entre o branco e o preto são essenciais para representar seus corpos, roupas, ornamentos e traços. Em algumas de suas imagens, Jean-Baptiste Debret empregava um refinamento puramente etnográfico, particularmente ao retratar os traços de indígenas brasileiros. Em seus bustos, o autor estudava as nuances e os principais atributos exteriores de indígenas brasileiros, elaborando registros detalhados de ornamentos plumários, pinturas e cicatrizes corporais, armas, colares e amuletos. Através das obras mostradas em Estandarte, Luísa revela o papel das mulheres na sociedade contemporânea e as representa com atributos simbólicos de sua subsistência, em vez de enfatizar uma suposta fragilidade feminina através de ornamentos e enfeites. Por isso, todas elas posam intencionalmente carregando uma arma – um revólver ou um rifle –, apesar de não se encontrarem em posição de disparo. A maior parte das armas aparece despretensiosamente apoiada no corpo da pessoa. Luísa considera importante reconstruir a imagem da mulher, frequentemente retratada segundo certos estereótipos de inacessibilidade e perfeição, quando, na realidade, a maioria delas é guerreira e luta por sua própria sobrevivência e pela de seus dependentes. As armas aqui retratadas não representam um ataque, e sim uma defesa!

Tecnicamente, as obras desta série também seguem um certo legado enraizado na cultura brasileira. Inclusive, Luísa Almeida trabalha exclusivamente com xilogravura. Tendo dominado a técnica do desenho no início de sua carreira, decidiu “aprofundar” seu traço e passou a criar suas próprias gravuras em madeira, em escala monumental. A inovação na técnica de impressão também foi fundamental para conseguir imprimir a escala monumental idealizada por ela. O tecido como suporte substituiu a fragilidade do papel. Uma prensa convencional não conseguiria transferir a imagem para o suporte de forma tão natural e autêntica. Após alguma experimentação, Luísa passou a empregar em sua prática de impressão maquinários como cilindros de aço, que transferem a imagem para o tecido. Imprimir é arriscado, já que o resultado só pode ser conferido após a finalização do trabalho. Imperfeições e pequenas manchas são incorporadas à obra como parte do “processo de maturação”. O acabamento com longas franjas resulta em uma extensão e confere dinamismo à composição.

Para a criação de Estandarte, Luísa Almeida atua como artista performática, criando, dirigindo e executando sua produção de forma incomum e experimental. Verdadeiros protótipos surgem como resultado de um ritual de reconhecimento e subsistência.

Tereza de Arruda
Curadora | Berlim, novembro de 2021

Vistas da Exposição

Luisa Almeida

A jovem artista visual se especializou em xilogravuras de grandes formatos e usa do contraste presente na técnica para se relacionar com sua temática-chave: retratos de mulheres e meninas empunhando armas de fogo no cotidiano. O que propõe é uma investigação sobre tal simbolismo na sociedade.

Também cenógrafa de óperas e peças teatrais, Luisa Almeida mescla recursos cênicos na concepção de sua obra, dando à luz instalações xilográficas. Parte de sua pesquisa se aprofunda em processos alternativos para a impressão de gravuras gigantes, como veículos, empilhadeiras e rolos compressores. Atualmente, é mestranda em Artes Visuais na Universidade Estadual Paulista (UNESP), onde se formou em 2017.

Estandarte
Trabalhos
Vistas da Exposição
Luisa Almeida

Galeria Kogan Amaro Zurique
Löwenbräukunst, Limmatstrasse 270
8005 Zürich, Switzerland
info@galeriakoganamaro.com

Estandarte é a primeira individual de Luísa Almeida fora do Brasil, e apresenta um corpo de trabalho único, criado e produzido para a exposição durante o programa de residência da FAMA – Fábrica de Arte Marcos Amaro, em Itu, São Paulo, em 2021. A mostra compreende uma série de nove gravuras sobre algodão cru que servem como “estandarte”, também conhecido como banner, usado em diversos eventos brasileiros ligados a tradições religiosas ou populares. O objeto geralmente ocupa um lugar de destaque em procissões e festejos, exatamente para que as atenções se voltem para seus dizeres e para os temas que menciona. Os diferentes contextos em que aparece representam interesses coletivos e de ordem pública. É o estandarte que inicia a procissão e guia o caminho dos que dela participam. Assim, exerce diferentes funções dentro de um mesmo contexto, tal sua importância. E é precisamente o Estandarte que abrirá os caminhos para a incursão de Luísa à Europa.

A artista é natural de Minas Gerais, um estado marcado por seus ritos religiosos e culturais, que viveu seu apogeu no período colonial, quando detinha inigualáveis riquezas naturais – especialmente o ouro –, atraindo assim diversos exploradores e conquistadores em seus primórdios. O legado mineiro inclui alguns dos principais expoentes do barroco brasileiro, que povoa o imaginário e as tradições de seus habitantes. A herança da terra natal aparece de diversas formas em seu trabalho: seja ao fazê-lo, executá-lo e construí-lo com suas próprias mãos e gestos, seja através da seleção de elementos estéticos nele incorporados. Estes não são empregados pela artista aleatoriamente, como meros ornamentos, e sim como simbologias que vem fazendo parte da história do regionalismo brasileiro por décadas.

Deste modo, Estandarte transpõe visualidades autênticas para o contexto europeu como parte de um emergente diálogo intercultural, processo que teve início no século XVI. Foi principalmente no século XVII, com a ocupação de parte do território brasileiro pela Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, que um processo planejado de documentação artística e etnográfica teve início, a partir a chegada de artistas como Frans Post (1612-1680) e Albert Eckhout (1610-1665). Uma série de registros destes artistas foram transformados em tapeçarias pela Gobelins Manufactory. Assim estabeleceu-se a circulação de imagens holandesas do Brasil na Europa, conforme foram sendo exibidas e distribuídas às casas reais e à nobreza. Esta representatividade evoluiu, sendo incorporada ao repertório conceitual da teoria da arte da segunda metade do século XVIII em diante. O pitoresco alcançou autonomia como cânone artístico formal, sendo compreendido como um tipo de composição diferente do paradigma clássico da beleza. Inicialmente ligado à composição ideal da natureza, o termo passou rapidamente a designar não apenas um amplo conjunto de temas e estilos, mas também de identidades étnicas. No início do século XIX, tornou-se uma fórmula comum, usada em publicações de artistas-viajantes. Um ótimo exemplo é o álbum do pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), Viagem pitoresca e histórica do Brasil (Paris, 1834/39), no qual o autor tentou associar seu trabalho a um subgênero específico da literatura de viagem, incorporando o pitoresco em sua obra como prática importante para a compreensão e documentação da realidade que encontrara.

No início deste processo intercultural não estava estabelecido exatamente um diálogo, e sim certas imposições e relatos criados através de uma narrativa de mão única, que não fora concebida sobre alicerces equânimes. O europeísmo foi apresentado como novo parâmetro ao Novo Mundo. A imagem do novo mundo foi construída e transposta por pesquisadores, cientistas, religiosos e inúmeros artistas itinerantes que, de maneira curiosa, mas também superficial, registraram e relataram o dia-a-dia da Terra Brasilis em suas obras. Desde então, este legado faz parte de inúmeras coleções de instituições e museus europeus, servindo como ponto de partida para o diálogo intercultural.

Trabalhos

Veja todas

Estandarte acontece em um novo momento histórico no Brasil. O país está prestes a celebrar o bicentenário de sua independência e, no campo da cultura, o centenário da Semana de Arte Moderna de 22. Foi necessário um século e um longo processo de reconhecimento, percepção, assimilação, integração e exploração para chegar à essência da brasilidade. É o momento de ampliar nosso debate, nossa compreensão e nosso discernimento. O desafio é encontrar respostas e visibilizar questões recorrentes em nosso tempo. Neste contexto, como representação autêntica e emergente, Estandarte nos guia em direção à compreensão de questões socioculturais. Luísa Almeida nos apresenta empoderadas protagonistas femininas do cotidiano brasileiro, dispostas a defenderem a si mesmas e seu lugar na sociedade. Através da visibilidade proporcionada pela artista, aprendemos a olhar o outro. Devemos perceber, no sentido de observar para começar a ver, rever, reparar e cuidar de sua participação na sociedade. Elas não são fictícias.

As mulheres aqui representadas têm nomes e rostos verdadeiros. Fazem parte do universo de Luísa, e por ela foram convidadas a serem retratadas em tamanho real. Por outro lado, essas mulheres compõe um universo paralelo, encenado, distante da realidade. Representam o legado de uma pessoa a ser cultivado através de sua imagem. O estandarte mantém viva a memória dessa existência passada. A imagem é centrada dentro de uma margem ornamentada que serve como moldura para preservar e enfatizar a pessoa retratada. Segundo a artista, “Imagens de flores e símbolos de proteção resgatam elementos da estética do Nordeste brasileiro, local onde a gravura também tem raízes profundas. Estes ornamentos prestam uma sutil homenagem às mulheres que fizeram parte do cangaço, um controverso movimento histórico antigovernista do fim do século XIX e início do século XX. As mulheres posam em frente a um fundo escuro e monocromático, de maneira que as nuances entre o branco e o preto são essenciais para representar seus corpos, roupas, ornamentos e traços. Em algumas de suas imagens, Jean-Baptiste Debret empregava um refinamento puramente etnográfico, particularmente ao retratar os traços de indígenas brasileiros. Em seus bustos, o autor estudava as nuances e os principais atributos exteriores de indígenas brasileiros, elaborando registros detalhados de ornamentos plumários, pinturas e cicatrizes corporais, armas, colares e amuletos. Através das obras mostradas em Estandarte, Luísa revela o papel das mulheres na sociedade contemporânea e as representa com atributos simbólicos de sua subsistência, em vez de enfatizar uma suposta fragilidade feminina através de ornamentos e enfeites. Por isso, todas elas posam intencionalmente carregando uma arma – um revólver ou um rifle –, apesar de não se encontrarem em posição de disparo. A maior parte das armas aparece despretensiosamente apoiada no corpo da pessoa. Luísa considera importante reconstruir a imagem da mulher, frequentemente retratada segundo certos estereótipos de inacessibilidade e perfeição, quando, na realidade, a maioria delas é guerreira e luta por sua própria sobrevivência e pela de seus dependentes. As armas aqui retratadas não representam um ataque, e sim uma defesa!

Tecnicamente, as obras desta série também seguem um certo legado enraizado na cultura brasileira. Inclusive, Luísa Almeida trabalha exclusivamente com xilogravura. Tendo dominado a técnica do desenho no início de sua carreira, decidiu “aprofundar” seu traço e passou a criar suas próprias gravuras em madeira, em escala monumental. A inovação na técnica de impressão também foi fundamental para conseguir imprimir a escala monumental idealizada por ela. O tecido como suporte substituiu a fragilidade do papel. Uma prensa convencional não conseguiria transferir a imagem para o suporte de forma tão natural e autêntica. Após alguma experimentação, Luísa passou a empregar em sua prática de impressão maquinários como cilindros de aço, que transferem a imagem para o tecido. Imprimir é arriscado, já que o resultado só pode ser conferido após a finalização do trabalho. Imperfeições e pequenas manchas são incorporadas à obra como parte do “processo de maturação”. O acabamento com longas franjas resulta em uma extensão e confere dinamismo à composição.

Para a criação de Estandarte, Luísa Almeida atua como artista performática, criando, dirigindo e executando sua produção de forma incomum e experimental. Verdadeiros protótipos surgem como resultado de um ritual de reconhecimento e subsistência.

Tereza de Arruda
Curadora | Berlim, novembro de 2021

Vistas da Exposição

Luisa Almeida

A jovem artista visual se especializou em xilogravuras de grandes formatos e usa do contraste presente na técnica para se relacionar com sua temática-chave: retratos de mulheres e meninas empunhando armas de fogo no cotidiano. O que propõe é uma investigação sobre tal simbolismo na sociedade.

Também cenógrafa de óperas e peças teatrais, Luisa Almeida mescla recursos cênicos na concepção de sua obra, dando à luz instalações xilográficas. Parte de sua pesquisa se aprofunda em processos alternativos para a impressão de gravuras gigantes, como veículos, empilhadeiras e rolos compressores. Atualmente, é mestranda em Artes Visuais na Universidade Estadual Paulista (UNESP), onde se formou em 2017.

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