Camila Rocha

Camila Rocha
Beatriz Sant'Ana

Camila Rocha

16 Set – 19 Out 2019

Abertura
14 Set, 11h–15h


Galeria Kogan Amaro

Alameda Franca, 1054
Jardim Paulista, São Paulo, SP

Camila Rocha

Cerne

A parte que fica no centro de qualquer “coisa”,
 o que existe de mais íntegro,
o núcleo,
a verdade,
a profundidade.

 

Muitas vezes, não vemos o cerne na natureza. Ele fica escondido, encoberto, camuflado, protegido. É o que permanece recôndito a olho nu. Para vê-lo, temos de enxergar o que está por detrás. E para isso é necessário usar a imaginação.

A primeira mostra individual da artista Camila Rocha na Galeria Kogan Amaro recria uma floresta misteriosa entre as paredes do espaço expositivo. Ganha vez um labirinto simbiótico de fauna e flora cheio de espécies de plantas-animais, meio répteis, meio anfíbios, e uma mata que se espalha por toda parte, em tipos botânicos exóticos, cipós e raízes fantasmagóricas. Seres que habitam uma selva densa, úmida e escura na qual o mais ruidoso são os bichos, os sons dos pássaros, dos insetos, mas também da própria água que corre. Nesse reino que não é nem animal nem vegetal, tudo parece ser uma coisa só, uma grande teia de diferentes matérias, formas, sentidos, corpos e matizes de verde. Onde um se alimenta do outro, formando uma cadeia de sobrevivência, em constante conexão e interdependência.

A natureza é mesmo uma simbiose rizomática. Esse é seu jeito de construir o mundo orgânico, que transborda de vida e dá forma às aquarelas, pinturas e esculturas de Camila. Ora suspensa no vazio, ora nas paredes, ora pousada sobre a mesa, e mesmo como pintura sobre tela, a natureza se esparrama pela galeria, tal qual vemos nas bordas da Mata Atlântica e da Floresta Amazônica. O lugar torna-se uma instalação de horizonte sem fim.

O que Camila Rocha faz é arte a partir de observação científica. Com as plantas, suas formas diversas, seus rizomas, suas colorações e seus volumes, cria uma floresta telúrica, quase uma devoção ao mundo vegetal, visível e natural. Busca a realidade sem deixar de lado as sensações e o caos. Encontra beleza na espessura dos vegetais, em seus formatos e cores.

No início do ano, a artista foi para o meio da Amazônia junto do biólogo Gilberto Castro e da ilustradora científica Dulce Nascimento. Navegou rios e igarapés por meses, dentro de um barco-casa, e criou um estudo preciso das aparências da natureza – como que um resgate da prática dos observadores botânicos que saíam pelas matas copiando em suas aquarelas aquilo que podiam avistar. Sua expedição agora toma ares de pintura fantástica, na mostra da Kogan Amaro.

A artista reinterpreta a floresta dando-lhe formas animalescas, o que provoca certo dinamismo colorido na sala expositiva. Um realismo mágico com seres espectrais que remetem ao longa tailandês Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas (2010), do cineasta-pintor Apichatpong Weerasethakul. É o caso da planta que se desenvolve como cobra – uma das múltiplas visões que Camila teve ao passear de canoa pelos igapós, a vegetação submersa da Amazônia, quase plantas-serpentes sem olho, começo nem fim. O resultado é um híbrido, nem planta nem bicho, que a paulistana pinta e recorta numa imagem quimérica, com relevo aveludado e sedutor: duas Plantas Serpentes; uma esticada na parede, atrofiada em seus 5 metros de comprimento, enquanto a outra, no ápice de seu desenvolvimento, com 40 metros, ziguezagueia pelo corredor da galeria.

Na viagem pelos rios amazônicos, o que mais chamou a atenção de Camila foram os troncos submersos, com sua casca escamosa, molhada e sem vida aparente, firmes como rocha, como seres rastejantes petrificados. Isso que resta ali intacto é chamado de “âmago” pela anatomia botânica. A parte no centro das coisas, a mais íntegra que há, o núcleo, a verdade, a profundidade. O cerne, enfim.

Agora em terra firme, o que propõe a artista é um mergulho no espaço expositivo, assim como uma submersão naquele Rio Negro que navegou às margens da floresta, no limite entre o que ainda é terra alagada e rio corrente. Um mergulho naquele espelho d’água, agora mimetizado pelo chão de cimento da galeria. É a narrativa que se dá pela tradução da biologia, fazendo-se em parte e no todo da visão entre paredes.

Formaram-se cinco elementos. Além das Plantas Serpentes, no centro, paira o Diagrama: um esquema vegetal feito de aço e todo maleável que representa a inflorescência da planta e risca o espaço. A instalação satisfaz os sentidos, usa a forma, a consistência, o peso, a temperatura e a aspereza, seja de seu  próprio corpo, seja de outro ou ainda de algo indefinível.

Na parede, um Glossário Fotossintetizante é composto de  imagens variadas, traduzidas em outra linguagem, a dos símbolos. Inspirado pelo Glossário ilustrado de botânica, da bióloga Nanuza Luiza de Menezes, agrupa as imagens por tonalidade, com base na forma como os raios solares são percebidos pelas espécies do reino Plantae – divididas entre organismos autótrofos, capazes de produzir seu próprio alimento, e clorofilados, que, por meio da luz solar, realizam fotossíntese.

A artista prefere a estética ao absurdo. Por isso, as Tabulares são fósseis feitos de bronze fundido para a eternidade. A inspiração vem das raízes, os órgãos quase sempre subterrâneos que favorecem a fixação no solo e a absorção de água e nutrientes (fundamentais, portanto, à sobrevivências das plantas).

Por fim, a observação técnica e escultórica de Camila fez emergir Acapurana, do tupi-guarani “assento feito de raiz cascuda, escamosa”. Encontrado nos Jardins do Diabo, como são conhecidas as clareiras das florestas que margeiam outro rio da região amazônica, o Carabinani, ali reinaria uma planta só, como reza a lenda local. Essa, a favorita dos espíritos malignos da floresta. Dizem que, à noite, eles que esvaziam esses lugares da mata para evitar que qualquer outra planta cresça por ali.

Assim como no filme do tailandês Weerasethakul, uma densidade enigmática nada linear ou convencional habita a obra de Camila. A realidade é aqui transfigurada em paisagem imaterial. Como uma epifania estranha e onírica, as pinturas e esculturas da artista são o cerne da nossa fuga ao ar livre.


Ricardo Resende
Diretor artístico