SÃO PAULO | ZÜRICH

 
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Rafaella Braga – Pour the Sun on My Tongue

Rafaella Braga – Pour the Sun on My Tongue
Rafael Kamada

Pour the Sun on My Tongue
Rafaella Braga

29 maio 2021 – 31 julho 2021
Curadoria: Tereza de Arruda

 

Abertura: 28 maio 2021 – das 14h às 19h


Galeria Kogan Amaro Zurich
Löwenbräukunst, Limmatstrasse 270
8005 Zürich, Switzerland

Pour the Sun on My Tongue é um importante marco na recente e intensa jornada artística de Rafaella Braga. É sua primeira individual, na qual apresenta trabalhos desenvolvidos entre 2019 e 2021 em seu atelier em Berlim, onde reside desde 2018, e inclui também uma instalação site specific na Galeria Kogan Amaro, em Zurique. Ela decidiu trocar sua cidade natal de Goiânia, no Centro-Oeste brasileiro, por Berlim. Foi audaciosa ao explorar um certo contexto sócio-cultural que enriqueceria sua formação, seu desenvolvimento e seu reconhecimento no âmbito da arte contemporânea.

Durante sua adolescência, ela já buscava na arte uma maneira de representar a vida e ampliar sua existência. Foi introduzida à arte através do grafite. Começou a fazer tags em um estilo diferente e enigmático, variando entre os clássicos e a tipografia facilmente acessível e reconhecível por seu lettering e sua caligrafia. A ideia de pertencimento, conquista e demarcação de território teve início com a linguagem das ruas e foi mantida por grupos e tendências desta cena local. Nessa época, ações coletivas aliviavam o comprometimento e a responsabilidade de uma performance solo. Que seria inevitável! Foi confrontada com pinturas pela primeira vez com a intenção de trazer o gesto pictórico das ruas para o espaço interno. No início, faltava inspiração e motivação para pintar do modo convencional. Ela achava que este não a representava, ao passo que tinha afinidade com a mentalidade das pessoas do grafite. Eles frequentavam e atuavam no mesmo espaço, com a intenção de mostrar que seres humanos existem e não podem simplesmente ser apagados, o que ocorre com frequência com o grafite, que guarda sua essência na efemeridade.

Após esta primeira experiência de forte tendência coletiva, interessou-se por experimentar a imersão em uma produção mais subjetiva e pessoal. A rua foi novamente importante neste processo introspectivo, não como vitrine, mas como um lugar de busca por materiais incomuns a serem usados como suporte para a sua produção artística. Detritos urbanos, como madeira, portas, telas descartadas, tecidos, e restos de tinta de parede foram reapropriados pela artista para criar suas primeiras obras, ainda no ambiente íntimo da casa. Quando começou a pintar em ambientes internos, ela explorava a representação abstrata com círculos e formas orgânicas como exercício para descontrair a linha e ao mesmo tempo superar o medo de criar. Foi na escola de arte estadual local, entre 2012 e 2016, que ela teve a oportunidade de explorar outras práticas artísticas, como a escultura em argila, o teatro, a dança e o desenho, fortalecendo seu ímpeto criativo. Entre 2016 e 2018, estudou arte na Universidade Federal de Goiânia, certa de que este não era o ponto de partida para satisfazer seus anseios artísticos, e decidiu então mudar-se para Berlim.

Pour the Sun on My Tongue mostra um conjunto das primeiras produções de Rafaella na Europa. Uma simbiose entre as figuras e a escrita domina suas pinturas em grandes formatos. A dimensão dos trabalhos torna possível experimentar uma outra perspectiva no mundo de gigantes no qual a artista está envolvida. De acordo com o artista: “Escrever é uma declaração da figura sobre como ela se sente. Um diálogo sincero no qual a escrita fornece algumas dicas textuais como guia para a concepção das imagens. A artista como instrumento de execução de uma tarefa. A escrita como forma de projeção, de manifestação, repete frases que acabam tornando-se um mantra, uma âncora para auxiliar e guiar o processo de criação”.

Muito da concepção pictórica vem da vitalidade da tinta empregada. As cores fazem referência à natureza e às memórias do sol, da luz e do céu de sua terra natal. Goiânia fica no Cerrado, o segundo maior bioma brasileiro, e é também coberta por faixas de floresta tropical. As cores que ela emprega, como o verde, o rosa, o turquesa, o laranja, o preto e o bege, não atuam apenas como fundo ou preenchimento de imagem, mas também como parte do primeiro plano, derramando-se fluidamente como se cobrisse a figura – uma manta de tinta provendo calor à representatividade. Os suportes das pinturas monumentais mantêm-se fiéis aos princípios adotados pela artista no início de suas experimentações artísticas. Ela não faz uso de telas convencionais montadas sobre chassis. A superfície que ela cria é uma colcha de retalhos de pedaços avulsos de telas, tecidos e outros elementos, que criam um suporte informal e aleatório, cheio de remendos com costuras visíveis, como cicatrizes em um corpo marcado pelo desgaste, reuso, reciclagem e revitalização. A composição estrutural refere-se a diversas partes de um corpo a serem conectadas, como uma construção do eu composta por muitos pedaços de uma colcha de retalhos de peças aleatórias, formando um ser humano inteiro.

A representação é dominada por uma figura central, que pode ser vista como um personagem autobiográfico, porém agênero. Para Rafaela Braga, tanto seu impulso criativo quanto sua produção são neutros, livres para a interpretação, e imunes a clichês e estereótipos. As linhas, volumes e sombras deste corpo são marcados por um pincel largo, customizado por ela. Estático, descendente, inclinado, enrolado em torno de si mesmo, este ser criado refere-se à imersão da dualidade artista-protagonista concentrada em seu universo. A nuance serena de suas feições não é confrontada pelo olhar e pela presença do observador.

A estreia de Rafaella Braga é essencial não apenas para ela mesma, mas também para todo o público que a vivencia como a anunciação da ponta de um iceberg. Sua jornada, a ser realizada no lugar de sua escolha, está impregnada de testemunhos dos principais expoentes das artes e movimentos contemporâneos, como o pós-modernismo, o neoexpressionismo, e o discurso pós-globalização e pós-colonial.

Pour the Sun on My Tongue marca o início de uma longa jornada!

Tereza de Arruda, Berlim
Maio 2021


 

Sobre a artista

Goiânia, Brasil – 1998
Vive e trabalha em Berlim, Alemanha

Rafaella nasceu em Goiânia, Brasil, 1998. Começou a traçar seu próprio caminho nas artes através do graffiti e depois se descobriu na pintura, explorando-a livremente e sem qualquer pré-concepção. Ela tem desenvolvido e materializado suas ideias principalmente em telas de grande porte, que podem ocupar paredes inteiras, revelando um método de trabalho fisicamente intenso.

Usando a tela como diário, sua prática tem o corpo como matéria-prima, investigando o próprio delineado por suas vulnerabilidades e segredos, e gira em torno da interação entre realidade e fantasia, identidade e tempo, oferecendo uma alternativa onírica à realidade.

 

 

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