SÃO PAULO | ZÜRICH

 
SÃO PAULO | ZÜRICH

Carlos Mélo

Carlos Mélo
Rafael Kamada

[Carlos Mélo]
Transes, rituais e substâncias

14 agosto – 18 de setembro 2021
Curadoria por Marcos Amaro
Texto crítico por Márcio Harum


Galeria Kogan Amaro São Paulo
Alameda Franca, 1054
Jardim Paulista, São Paulo, SP

Texto crítico

TRANSES, RITUAIS E SUBSTÂNCIAS é a primeira exposição individual de Carlos Mélo na Galeria Kogan Amaro em São Paulo. O artista exibe um conjunto de trabalhos de pinturas, desenhos, fotografias, esculturas têxteis e neon.

Por havermos nós chegado ao ano 1 da pandemia, estamos vivendo um estado de oscilação constante entre o autocuidado e a incerteza diante de tantas novas regras fixas de distanciamento social, restrição de circulação e tempo dentro de casa. As sensibilidades em relação ao real, às outras pessoas e a nós mesmxs tem sido profundamente transformadas pela insegurança: como andamos na rua, percebemos um cheiro, respiramos, trabalhamos, dormimos, aprendemos, amamos, recebemos uma informação, olhamos um trabalho de arte, lemos um texto, provamos uma comida, tocamos a pele de alguém. A instabilidade tem guiado os nossos sentidos.

That is the question, 2021, é um neon montado sobre base de acrílico. A contração semântica entre TUPI-PITÚ (Pitú é uma marca pernambucana de aguardente exportada) nos confirma a pesquisa artística que Carlos Mélo vem realizando a partir de anagramas e ações performáticas nos últimos anos. Qual o significado oculto por trás dessa luz neon? O artista talvez esteja a refletir um tanto acerca do Manifesto Antropofágico, lançado originalmente em 1928, e que de tão particular maneira atualiza sua contribuição de pensamento às vésperas da Semana de 1922 completar cem anos. O debate por uma revisão crítica e decolonial aqui é sugerida, pois a camada subterrânea que surge escavada é a questão do alcoolismo entre indígenas. Com a publicação em 2019, sob apoio financeiro da Organização Pan-Americana de Saúde, do Manual de monitoramento do uso prejudicial do álcool em povos indígenas, a crise social aguda de saúde gerada pelo alcoolismo como estratégia de invasão de territórios indígenas tornou-se visível. Uma semiótica bêbada nos faz enxergar tremulamente o que surge à nossa frente: TUPITU.

A série Abismos, 2021, é composta por três desenhos sem título, autorretratos em grafite sobre papel de 100 X 70 cm. Uma figura com cabeça de carranca e braços múltiplos faz alusão direta a aura mítica do Rio São Francisco. Ao longo da última década, o projeto de transposição do rio não sai de nossas cabeças pelo medo da vastidão destruidora das inundações. Uma outra figura de homem com braços de Shiva parece estar em levitação, segurando entre suas mãos um buquê de flores aberto como se fora um cavaleiro romântico sobre um animal invisível coberto por uma ossada. A terceira figura, algo barroca, remete a um corpo vestido em calça jeans, no qual se nota reunido junto a ele ossos, flores e um capacete. Nas próprias palavras de Mélo, a presença desses três desenhos na exposição é como se fosse a assinatura do artista.

Overlock, 2021, são três esculturas têxteis produzidas artesanalmente com a utilização de maquinário por uma cooperativa de costureiras. A partir da justaposição de tecidos com texturas espessas, provenientes de materiais de sobra de fábricas de confecção e tecelagem, as peças são montadas sobre estruturas de ferro de 2m de altura. As esculturas se relacionam com detalhes das golas dos trajes do maracatu, e estão voltadas a compreensão da realidade dos centros de modelagem e customização do recente parque fabril de jeans no interior do estado de Pernambuco. A frenética circulação de mercadorias entre a tradicional feira de Caruaru e outras grandes regionais brasileiras faz do polo de Toritama um emblema quanto a este processo (tori significa pedra em latim, e tama é região em tupi). O impacto cultural da implementação de tal zona industrial é o que vem tornando o campo sem agricultura. As pessoas lavradoras são o operariado manufatureiro da atualidade. A subversão da economia é uma dobradiça, e tem acarretado profundos efeitos transformadores da ordem, como por exemplo, o de não mais existir para o trabalho e transporte jegues e cavalos por essas terras, só há motos nos dias de hoje. A mentalidade que incita a espera do carnaval chegar deflagrou um slogan publicitário bastante conhecido, decretando a máxima ‘o jeans valoriza o seu corpo!’. As obras de Carlos Mélo nos ajudam a formular as seguintes indagações para um nordeste que (des)conhecemos: quais novas formas se instalam nesse contexto? Que corpo estranho é instaurado ali? Que residual simbólico repercute devido a tamanha alteração drástica da economia local? Uma outra dimensão de Overlock nos deixa a sós com o debate público acerca da pilhagem patrimonial cometida por processos de colonização, como os mantos tupinambás em coleções ao redor do planeta. A repatriação de bens históricos e culturais saqueados por estados e táticas colonialistas tem pautado uma lista de temas urgentes e correntes entre orgãos diplomáticos e a museologia internacional.

Cascos, 2021, escultura de parede, é uma peça produzida com capacetes em desuso de motoboys da cidade de Itu, interior de São Paulo, onde o artista realizou um período de residência artística na FAMA. Após os cascos terem sido coletados com a colaboração da Associação de Motoboys local, foram colados, aparafusados e montados junto a uma base de parede. Surpreendentes cores e volumes formam uma cartografia na qual a vida dinâmica dessa rede de profissionais sobre duas rodas é a tônica. Tal atividade laboral tem sido potencializada ao máximo durante a pandemia, e nos faz recordar uma vez mais que a utilização de motos para trabalho e transporte vem substituindo a força animal pelo interior do Brasil.

Êxodo, 2020-21, é uma série de quatro pinturas sobre lona de caminhão de dimensões variáveis. O material foi submetido a diversas camadas de tinta ao longo do período de experimentação que durou um ano. O processo somente foi finalizado após sofrer uma sequência de lavagens industriais. Mobilizado pela leitura de uma reportagem sobre a história de famílias de migrantes que rumavam de regresso em caminhões clandestinos a região nordeste para escapar da pandemia, escondidas debaixo de lonas para burlar as barreiras de vigilância sanitária – o artista aplicou camadas de tinta durante o isolamento social como se fossem detalhes de platibandas – aquelas faixas horizontais que emolduram as fachadas das casas. O ponto de vista desejado é o ângulo de quem passasse deitado olhando em trânsito as ruas das cidades. Uma hipótese plausível para o detalhe arquitetônico, é de que a platibanda tenha desembarcado por terras nordestinas junto com a Missão Artística Francesa no início do século XIX. Os motivos das fachadas são vistos frequentemente nas construções antigas e servem para ocultar telhas e calhas. As composições são diversas e ocorrem segundo a preferência dos proprietários de cada imóvel. A interseção da temática com os apontamentos no trabalho de Mélo ocorrem na busca simultânea por um resgate dos aspectos da formação cultural do país.

Sapukaîa, 2021, performance para câmera com série de três fotografias de 90 X 150 cm e backlight de 60 X 80 cm trajado com um paletó sustentando galinhas vivas sobre seu corpo em meio a paisagem. A galinha trazida da Europa pelos colonizadores, atemorizou grupos indígenas e ganhou seu nome tupi como sapukaîa (ave que grita, uma de suas versões). O problema do convívio e da exploração animal, desta vez para fins alimentícios e ritualísticos, faz-se aqui novamente presente nos rastros da exposição. Pela imagética do conceitualismo, a obra de Carlos Mélo reposiciona a noção de corpo sob condições de interatividade com o meio-ambiente agreste específico que o circunda. De acordo com uma menção do artista, a exposição TRANSES, RITUAIS E SUBSTÂNCIAS é o ruído da galinha que grita.

Por Márcio Harum

 


 

Vistas da exposição


 

Texto curatorial

Carlos Melo é uma invenção de si mesmo. Artista, humanista, escritor e poeta. Pernambucano, estudioso, de fala branda. Carlos é uma fera! Conquistou prêmios, bolsas e reconhecimentos públicos. Seu trabalho fala com as vísceras. Essa exposição revela uma parte da sua obra. Desenhos, pinturas, fotografias, esculturas, vídeos e performance. Tudo para nos fazer sentir o gosto da sua terra. Carlos incorpora mitos e tradições religiosas em sua poética visual. Retomando ritos e costumes dos povos originários. Carlos é um pesquisador e desbravador da nossa língua. Expandindo significados e interpretações. Carlos Melo é um artista completo. Dos pés a cabeça. Seu legado é uma esfinge. Tenho muito orgulho e admiração pelo seu trabalho e pela nossa amizade.

Por Marcos Amaro

 


 

Obras


 

Sobre o artista

Riacho das Almas, Perenanbuco – Brasil, 1969
Vive e trabalha em Recife, Pernanbuco – Brasil

Carlos Mélo É um artista plástico brasileiro, nascido na província de Permanbuco, uma região formada por uma cultura complexa vista por várias nações africanas, algumas tribos indígenas e européias de origem Moura. Seus trabalhos passam por vídeo, fotografia, desenhos, instalação, escultura e performance, em uma investigação do lugar que o corpo ocupa no mundo. Através de anagramas e ações de performance, o artista aborda imagens e palavras praticando o contorcionismo semântico. Busca convergir o corpo em situações de interação com o ambiente e imagens conceituais que sugerem que seja definido de forma relacional, operando simultaneamente um resgate de aspectos da formação cultural brasileira. Para Suely Rolnik, “a obra de Carlos demarca um território, ou melhor, o estabelece. Como nos animais, isso é feito por meio de dispositivos sempre ritualizados, que são, sobretudo, ritmos. No entanto, diferentemente dos animais. Aqui, o ritual e seu ritmo mudam constantemente; são inventados a cada vez, dependendo do ambiente em que são feitos e do campo problemático que procuram enfrentar, para isso o artista se instala na imanência do mundo, aos pés do real vivo, apenas apreensível pelo carinho.”

Idealizou e realizou a 1ª Bienal do Barro do Brasil, Caruaru (2014). Participou de exposições coletivas como a 3ª Bienal da Bahia, Salvador (2014); No Krannert Art Museum, Universidade de Illinois, Champaign, EUA. (2013); No Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife (2010 e 1999); No Itaú Cultural, São Paulo (2008, 2005, 2002 e 1999); Entre outras. Exposições individuais foram realizadas na Galeria 3 + 1, Lisboa, Portugal (2010); No Paço das Artes, São Paulo (2004); E na Fundação Joaquim Nabuco (Recife, Brasil, 2000). Foi vencendor do Prêmio CNI SESI Marcantonio Vilaça de Artes Plásticas (2006). Vive e trabalha em Recife.

 

 

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