SÃO PAULO | ZÜRICH

 
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Estados cotidianos – Tangerina Bruno

Estados cotidianos – Tangerina Bruno
Rafael Kamada

Tangerina Bruno
Estados cotidianos

13 Jan – 8 Fev 2020

Abertura
11 Jan, 11h–15h


Galeria Kogan Amaro
Alameda Franca, 1054
Jardim Paulista, São Paulo, SP

Tangerina Bruno: Estados cotidianos

Na obra mais traduzida de Sigmund Freud, Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, o psicanalista debate como o inconsciente se expressa na nossa rotina por meio de sentimentos comuns, como medo, desconforto, surpresa e atenção. Seu desejo é demonstrar que a psicanálise não se limita ao estudo da anormalidade, mas se dedica a descrever e compreender a mente humana e a transformação que vivenciamos fisicamente mesmo por meio daquilo que apenas sentimos. Nas pinturas do duo Tangerina Bruno, situações rotineiras, enquadradas de forma precisa como frames de uma produção cinematográfica, evidenciam esses sentimentos vulgares, mas que nem por isso são menos relevantes no entendimento da psique humana.

A captura desses instantes pelos irmãos gêmeos Cirillo e Leticia Tangerina Bruno, de 26 anos, retratam o momento de ação da figura que habita a tela. Estão congeladas, sim, mas também em movimento. Passam roupa, gritam em cima de uma cadeira, tomam banho, costuram. É possível receber as vibrações dos gestos dos personagens não só pelo que a cena nos induz, mas também ao nos debruçarmos nas micronarrativas que acontecem em detalhes da tela, pintadas em uma colcha de cama desarrumada ou num móvel que compõem a sala. As situações realistas retratadas em cores vibrantes nos remetem diretamente às pinturas de David Hockney, Alex Katz, Alfred Leslie ou até Edward Hopper. Tais cenas ganham seus epílogos em títulos certeiros, que brincam com provérbios populares, insinuando certo humor e ironia ao reconhecermos (e também desdenharmos) as emoções expostas ali.

Cada obra recebe meses ou até ano das mentes e punhos da dupla nascida em Porto Ferreira, interior de São Paulo. Debruçados ora simultaneamente ora alternados na tela, fortalecem sua própria história em uma mistura inebriante de funções e talentos. Se Leticia traz nas mãos a precisão do hiperrealismo em retratos e autorretratos dos próprios irmãos, Cirillo trabalha a estamparia da produção, que reverberam e atestam as ideias centrais das obras. A empreitada exige as quatro mãos e as duas mentes dos artistas que se transformam em um terceiro elemento, vivo, dono de novas ideias, que produz, pinta e reconta as experiências vividas pela dupla.

 

Ana Carolina Ralston
Curadora