SÃO PAULO | ZÜRICH

 
SÃO PAULO | ZÜRICH

Gabriel Botta

Gabriel Botta
Rafael Kamada

[NOS CONFINS]
Gabriel Botta

20 de janeiro – 27 de fevereiro, 2021


Galeria Kogan Amaro
Alameda Franca, 1054
Jardim Paulista, São Paulo, SP

Pensemos nos fenômenos que se impõem violentamente, mas que são da ordem das imagens transitórias, difíceis de apreender. Talvez você, leitor, se lembre das zonas de arrebentação — o choque das ondas, os fogos de artifícios, as grandes ventanias, os incêndios, explosões, erupções. Eles nos inundam de excitação visual, mas escapam rapidamente. Num piscar de olhos, já não são a mesma coisa, ou não estão mais aqui.

Creio que essa primeira exposição de Gabriel Botta na galeria Kogan Amaro nos fale desses gestos efêmeros prestes a se refazer ou desconstituir. Suas pinturas são capturas temporárias, limites de visualidade. Diante delas, nada permanece, tudo se esvai. Confim, significante que dá título à mostra, quer dizer limite, fronteira, mas também o local mais afastado, desconhecido. Nós, espectadores, contemplamos esses trabalhos como quem medita na margem de um rio corrente e observa a água transformar tudo o que toca.

Poderíamos reconhecer o atributo da impermanência como algo compartilhado por uma geração que cresceu imersa na internet e no mundo digital, cujas imagens são sempre provisórias e, ironicamente, imperativas. Mas além disso, proponho reconhecer a pintura fronteiriça de Botta a partir da concepção de paisagens internas e externas. Zoom in. Zoom out.

No plano externo, tais obras podem ser vistas como fragmentos de paisagens, relevos acidentados, oceanos profundos, retalhos do espaço sideral. São como a tentativa de mapear um território desconhecido que nos fascina e amedronta. No plano interno, em via contrária, elas configuram cartografias de nossos afetos, intensidades, emoções. Não seria possível ignorar o caráter expressivo desses gestos pictóricos: eles são, antes de tudo, indícios de um corpo que se desloca incessantemente, um corpo que não cessa de se imprimir na tela.

Giorgio Agamben diz que, no gesto, “cada corpo, uma vez liberado de sua relação voluntária com um fim, pode, pela primeira vez, explorar, sondar e mostrar todas as possibilidades de que é capaz”. Nessa direção, a pintura de Botta pode ser lida como exercício das vidas possíveis, exercício do gesto infinito. Ela nos fala da aparência frágil das coisas no mundo, mas também de sua pulsão por tomar as superfícies.

As obras presentes nesses confins, portanto, não se encaixam perfeitamente nos desenhos do real, não são espelho do mundo. Ao contrário, nublam nossa visão, sussurram segredos, esboçam enigmas. Com elas, persiste a sensação de que não é possível ver, mas apenas entrever, espiar, vislumbrar. Dessa experiência limítrofe, lembro-me do poema de Ismar Tirelli Neto, que aqui compartilho: “Fui aos confins / Tomo este canto aos confins / Agora estou de volta / Agora falo pelos confins / Que lhe disseram os confins? / Agora estou de volta”. Aqui constatamos que habitar as bordas é também um modo de alargar as fronteiras. Talvez assim seja possível abraçar o estranho, o desconhecido que nos habita.

Pollyana Quintella
Curadora

 


 

Sobre o artista

Gabriel Botta tem como foco de seu trabalho a investigação da imagem através da pintura – ora a partir da tradução de imagem em gesto, ora na pintura como paisagem do próprio narrador; sujeito e objeto de seus estudos pictóricos. A obra acontece a partir da experimentação de diferentes materiais e suportes, que com suas características distintas proporcionam diferentes tempos e gestos, manifestando as transitoriedades do artista e do tempo em que vivemos; nesta construção o fio narrativo vai tomando forma.

Estudou Design de Produto e Artes Plásticas e na Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP (2006-2012), Filosofia, Pedagogia e estética no Conglomerado Atelier do Centro – C.A.C (2012-2019) e Pintura e Vídeo Arte na Escola de Artes Visuais do Parque Laje – EAV (2011). Dentre as exposições, participou da 5ª Edição do Prêmio EDP nas Artes, do Instituto Tomie Ohtake (2016), e ganhou o Prêmio Aquisição no 42° Salão de Arte de Ribeirão Preto – SARP, no Museu de Arte de Ribeirão Preto, mesma instituição onde, no ano seguinte, realizou sua primeira exposição individual, intitulada “9”.

 


 

LIVRO DE VISITANTE

  1. Sandra Kapel Furman 2 meses atrás

    O trabalho do Gabriel esta sempre nos assombrando,de maneira positiva! A cada tela se percebe o amadurecimento deste jovem artista que tem talento, muito talento!!!
    As cores das telas já fazem parte do contar histórias!

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