SÃO PAULO | ZÜRICH

 
SÃO PAULO | ZÜRICH

Mirela Cabral

Mirela Cabral
Rafael Kamada

[REBENTO]
Mirela Cabral

Exposição Virtual
Curadoria: Agnaldo Farias


Galeria Kogan Amaro
Alameda Franca, 1054
Jardim Paulista, São Paulo, SP

 

Até chegar aqui, em sua primeira individual, muita água correu por debaixo da ponte, o que é admirável, face à juventude da artista. Antes, das artes plásticas, Mirela Cabral passou pelo cinema, quatro anos numa faculdade aqui, um ano estudando fora do país, mais um ano trabalhando com roteiros, conhecendo os meandros de um universo áspero, em que as decisões são tomadas em esferas inacessíveis, tornando quiméricas noções como controle e autoria. Mas isso talvez não importe muito. Parafraseando Joseph Brodsky, em relação aos artistas, da mesma maneira com que acontece com os pássaros, os dados biográficos interessam menos que a singularidade de seus cantos, ainda que tragam, em seu bojo, diluídos, esses dados. Feitas as contas pelo calendário, seu trabalho afirmou-se muito rapidamente. Uma surpresa até para ela.

Até o distante ano de 2019, sua produção era eminentemente figurativa, do que é prova Sopro, o trabalho mais antigo desta mostra, um desenho sobre papel realizado com grafite, carvão, bastão oleoso, maçarico, aquarela, acrílica, palo santo (uma madeira peruana que atua como um tipo de carvão), sobre uma folha de papel de 152 x 153 cm. Discrimino o elenco de materiais, para que se tenha noção dos vários procedimentos, dos gestos envolvidos na realização de um corpo retorcido,  descarnado, como se a pele lhe tivesse sido arrancada, músculos e ossos percorridos por correntes elétricas, retraindo pés e mãos, obrigando-os a se encontrarem, formando um ponto de convergência, de onde flui uma linha grossa, borrada, que desce até o limite inferior do papel, escapando dele. O desenho/pintura timbra pela sujeira, as cores são intensas, misturam-se, ao passo em que disputam cada centímetro. Há tons de amarelos, azuis, vermelhos, cinzas, brancos e pretos, e eles vêm de cambulhada, amalgamados, mas também esgarçados, com manchas e linhas vibráteis. Aliás, tudo ali vibra, mais não fosse porque linhas e planos são descontínuos, truncados, resultado de um labor incisivo, mas que parece esbarrar numa enorme resistência.

O braço esquerdo da figura parece amputado, a deformação do ombro desse mesmo lado divide o protagonismo com a cabeça e é possível perceber-se dois seios, duas esferas excêntricas, mas não se pode garantir que o corpo seja masculino ou feminino. Isso não importa muito. No seu caso, tanto o binarismo do gênero, quanto o da formulação “arte abstrata x arte figurativa”, que tanta importância teve, ao longo do século XX, não diz muita coisa mais, perdeu sua validade. Mirela compartilha o princípio, segundo o qual a arte não trata de coisas reais, mas de ideias referentes às coisas reais. Arte é uma aventura da linguagem. Como tal, diz respeito ao ser humano. É nisso que ela acredita e, por isso, constrói essa figura, lançando mão de tantos recursos. Faz eco com a formulação de Henri Bergson, para quem o elã vital, a necessidade de expressão, funda-se no impulso condensado na matéria, e, antes disso, funda-se no próprio impulso. O que somos senão nossos próprios atos, o desejo que nos faz confluir neles? De volta aos materiais, grafite pouco tem a ver com carvão, que pouco tem a ver com bastão oleoso, que pouco tem a ver com aquarela, e por aí vai. Cada material, da tinta acrílica ao maçarico, com seu feixe focado de fogo, tem sua idiossincrasia, sua personalidade, exige aprendizagem, treino, puxa, daquele que o emprega, inteligência e sensibilidade particulares. Isso, que se chama habilidade, não é outra coisa que não o resultado de um convívio. Saber escutar o material, os instrumentos utilizados para lidar com ele, saber escutar o mundo.

Com a exceção do trabalho acima referido, todos os trabalhos desta exposição, desenhos, pinturas e bordados, nasceram durante a pandemia, do isolamento que levou a artista ficar trancada durante oito meses numa casa no interior de São Paulo, a maior parte do tempo com sua pequena família, optando por trabalhar durante a madrugada, quando os outros dormiam, no silêncio de uma garagem, até então frequentada apenas por um rato, co-habitante cuja presença ela mais intuiu do que qualquer outra coisa. Até que o viu. Aí a coisa mudou, a rigor, já vinha mudando.

O isolamento é uma situação comum a um considerável número de artistas, razão pela qual ficam com os nervos eriçados, quando ficam diante da obrigação de divulgarem os trabalhos, agirem “profissionalmente”, o que implica em fazer uma exposição de quando em quando, à maneira do indefectível disco de final de ano do Roberto Carlos. Exagero? Pertencer ao time de uma galeria supõe uma exposição a cada dois ou três anos, além de participações pontuais, em feiras e coletivas. Mas isso quando a galeria não tem conexões. Quando as tem, quando abre filiais, quando compartilha artistas representados com galerias estrangeiras, bom, aí a vida pode se converter num inferno. Mais de um artista famoso confessou-me ter saudades do tempo em que não era conhecido, porque então podia trabalhar. Hoje em dia, ser profissional significa ser simpático, frequentar jantares e vernissages, que não só as próprias, receber visitas de colecionadores e curadores. Isso não é necessariamente ruim, mas desgastante e dispersivo. Ser artista é saber levar sua relação com o meio artístico. Mirela que se cuide.

Ser artista significa estar às voltas com seu trabalho, intimidade que os outros sequer compreendem: ainda vigora a imagem do artista como um ser “inspirado”, condição antípoda a um cotidiano metódico e disciplinado. Assim, enquanto a pandemia empurrou todos para a frente da televisão, da tela do computador, da superfície hipnótica do celular, os artistas continuaram com suas rotinas obsessivas e, não raro, improdutivas. Mirela fez isso: pintou, desenhou e bordou continuamente, a fim de sustentar suas perguntas mais íntimas, através desses suportes, aplicou-se nas leituras extensas, junto ao grupo de estudos comandado pelo artista carioca Fred Carvalho, fabricou materiais desaparecidos do mercado, por conta da pandemia, como o bastão a óleo, e recorreu com método aos seus deuses tutelares, um arco de artistas que vai de Egon Schiele a Eva Hesse, Jean Michel Basquiat, Cy Twombly, Maria Lassnig, e por colegas brasileiros como Lucia Laguna e Edu Berliner (até o momento ela não conhecia Marcelo Solá, não sabia que ele é seu parente). Pode-se contabilizar outras referências, diretas e indiretas, como William de Kooning, entre outros vetores do expressionismo abstrato. Nenhuma novidade nisso. A propósito das inelutáveis referências, que toda obra possui, ficou conhecida a formulação bombástica de Eugênio D’Ors, citado por Luis Buñuel: “Tudo o que não é tradição é plágio”. Não se escapa da tradição, como não se escapa da própria língua. A mágica do artista consiste em operar nas bordas desse limite, fecundando-as, o que também quer dizer negando-as. Afinal, o que significa uma arte expressiva nos dias de hoje? A artista empenha-se, a fundo, na resposta a essa questão.

Afora a seleta bibliografia compulsada, os volumosos catalogues raisonnés, estudados todas os dias, estratégia para aquecimento da jornada noite adentro, a prática diária de Ashtanga Yoga, o que significa uma sequência fixa de movimentos que exercem ação sutil de força e limpeza do corpo, na construção de si, Mirela passou a observar a casa, os espaços vazios, os cantos e os vasos de plantas nesses cantos, os nichos desocupados e o vertiginoso universo exterior, a natureza, reduzida ao jardim, mas que também incluía um bocado de mato e um lago quase seco, com margens indecisas, o chão arrebentado por galhos e raízes . Nesse ponto o rato passa a fazer muito sentido. Quem mais habita a casa onde vivemos? Quais vidas, por minúsculas, imperceptíveis que sejam, estão por ali, ativas, às vezes dias e noites, como as formigas?

Os passeios curtos pela casa e jardim, a contemplação atenta, levou Mirela a entender o conselho de Rilke, em sua Cartas a um jovem poeta, segundo o qual cabia a ela a escolha entre se render ao tédio ou extrair poesia de qualquer objeto ou situação cotidiana. A primeira constatação, fruto dessa tomada de posição, foi que nada para. Nunca. Que a grandiosidade estática de uma parede encobre o processo irreversível de sua ruína, expresso nas delicadas teias que irrompem nos vértices dos ambientes, os insetos, alguns bem esquisitos, surgidos sabe-se lá de onde, os fungos que brotam nas juntas mal lavadas dos azulejos do banheiro. Em relação ao jardim e ao mato circundante, aí a experiência adquiriu contornos maiores. Durante meses, deambulou pelo jardim em meio aos Pacovás, Espadas de São Jorge, Astromélias, Samambaias, que estão em toda parte, palmilhando as trilhas estreitas frequentadas por Quero-queros ciosos de seus ninhos cavados no chão, espiando a horta do vizinho onde resplandeciam cebolinhas. Visto com atenção, um jardim, um pedaço de mata são palcos de explosões mais ou menos secretas, com os esporos e sementes fazendo rebentar o corpo das plantas, lançando-se no ar, dispersos para áreas distantes, levados pelo vento e pelos animais.

A consciência dessa pirotecnia incessante fez com que a artista explodisse as figuras. Elas estão nesses desenhos, pinturas e bordados, ora expostos, mas, por detrás de nomes como Pedra, Aquática, Bambú lírio, Ninho, Beira da ponte, pode ser melhor não perder tempo tentando reconhecê-los. O que importa são as linhas, a exuberância do grafismo, o modo peculiar como a artista plasma e pensa sua expressão. Evisceradas as formas, dilacerados os contornos, as linhas, por elas mesmas, assumiram a preponderância do processo. Não lhes cabia mais representar nada, passaram a ter vida própria.

A ansiedade, decorrente do trato de um mundo renovado, levou-a a um caminho novo, uma prática capaz de carrear elementos para sua investigação, que abrisse para experiências temporais, distintas da alta velocidade já atingida em seus desenhos. O virtuosismo, como se sabe, tem efeito paralisante. Foi daí que ela chegou ao bordado, às lojas de armarinhos da cidade próxima, com suas prateleiras repletas de linhas de meada, as pilhas e pilhas de cores, uma paleta exuberante.

Comparado com a ferocidade com que a artista ataca papéis e telas, o tempo do bordado prima pela desaceleração; um tempo lento, sobretudo para quem, como ela, não tem conhecimento prévio de qualquer espécie de técnica sobre bordados. Tomando a linha/cor entre os dedos, passou a enfiá-la pela agulha, depois de havê-la separado da meada, pondo em marcha o ir e vir metódico, repetitivo, como um mantra construído e entoado com as mãos. Ressalte-se a substantiva diferença entre riscar uma linha e construí-la, passo a passo, ponto a ponto, cuidando a variação da fatura de cada uma delas, na medida do pequeno repertório técnico da artista. Ninho I e Ninho II dão a ver engrossamentos das linhas, mudanças súbitas de cor, os planos texturados convivendo com formas sutis, realizados com linhas finas; uma falta de unidade premeditada, um mosaico de decisões e ritmos.

Os bordados concorreram para a mudança dos desenhos e das pinturas. Embora seja possível entrever-se uma figura – uma planta, objetos, paisagens-, eles são mais sugeridos do que enunciados com clareza pois, como já disse, a artista começou a explodir os referentes, os motivos tomados do, assim chamado, real. O assunto predominante de seus desenhos e pinturas passou a não ser mais as coisas e tampouco os sentimentos, mas a organização da matéria pictórica e gráfica sobre papel ou tela. Aqui e ali apreende-se um plano longilíneo, a sugerir pontos de fuga de uma mesa ou de um ambiente, outros arranjos nucleares levam a pensar em flores e arbustos. Mas tudo isso é vago. O resultado, como se pode avaliar nesse impressionante conjunto de trabalhos expostos, pauta-se pela descontinuidade, isto é, em lugar de resultados homogêneos, de composições e faturas coerentes, o que se tem são linhas interrompidas, entrecortadas, fraturadas, fruto da opção pelo emprego de técnicas diversas. Uma linha começa com seu corpo enunciado por pastel oleoso, passa para o grafite, metamorfoseia-se em carvão, transmuta-se em tinta a óleo, enquanto todo o tempo pode ser acompanhada por nanquim. Não bastasse essa multiplicidade de materiais, cada um a estimular e exigir, da artista, tratamentos específicos, acontece ainda uma profusão de manchas, escorridos e borrões. A artista foge do virtuosismo, do gesto escorreito e adestrado; onde outros, de sua mesma geração, preferem a limpidez de imagens hiper-reais, sedutoras e apaziguadoras, ela opta pelo ruído.  Em lugar do signo claro, ela nos oferece o garrancho, a garatuja; essa apologia da mão deseducada aproxima-a do que há de selvagem em nós, da constatação de que não há um caminho único, uma saída, apenas uma procura persistente e sem fim à vista.

Agnaldo Farias
Curador

 


 

 


 

Sobre a artista

Mirela Cabral nasceu na cidade de Salvador – Bahia em 1992. Formou-se como bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Cinema pela FAAP e paralelamente frequentou cursos artísticos em escolas como Parsons Paris, NYFA e UCLA. No Brasil, teve aulas com Agnaldo Farias, Manoel Veiga, Leda Catunda e Charles Watson. Hoje, dedica-se ao desenho, pintura e bordado como suas principais mídias de investigação, interessada em pesquisar como se interagem e se complementam entre si.

 

 

LIVRO DE VISITANTE

  1. Pedro Cabral 3 meses atrás

    Parabéns à Mirela.
    O trabalho está lindo.
    Muita coragem de enfrentar todas as dificuldades que nos cercam e realizar uma exposição com uma produção consistente e belíssima.
    Aguinaldo Farias traz no seu texto impecável esta história.
    Parabéns à Marluce, Marcos Amaro e todo o time da galeria.

  2. Gustavo Soares 3 meses atrás

    Mirela é daquelas pessoas que você conhece e sabe, instantaneamente, que ela vai encontrar a forma e vai dizer o que precisa ser dito. Pouca gente me mostrou tanta coisa nova no pouquíssimo tempo que convivemos. Cada obra me faz pensar em cada conversa que tivemos: nada passa despercebido, nada fica como era antes.

  3. Álvaro Uliani 3 meses atrás

    Gostei muito da exposição, Mirela. As obras provocam em mim a sensação de movimento, sobretudo os bordados. As linhas parecem explorar caminhos possíveis, como se, deixados por conta própria, fossem capazes de ultrapassar os limites da plataforma. Parabéns.

  4. Flávia Rocha de 2 meses atrás

    Apaixonada pela beleza e qualidade de cada peça dessa exposição! Parabéns à Artista Mirela Cabral.

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