SÃO PAULO | ZÜRICH

 
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Corpo Expandido, Carollina Lauriano

Corpo Expandido, Carollina Lauriano
Zwei Arts

Fortuna Crítica
Élle de Bernardini

Corpo Expandido, Carollina Lauriano

Corpo Expandido, Carollina Lauriano

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Black and gold, Raphael Fonseca

Black and gold, Raphael Fonseca

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Élle de Bernardini, Beatriz Lemos

Élle de Bernardini, Beatriz Lemos

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Élle, seu corpo é a nossa medida, Júlia Lemos

Élle, seu corpo é a nossa medida, Júlia Lemos

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Corpo Expandido

Carollina Lauriano

Em Manifesto Contrassexual, o filósofo espanhol transexual Paul Beatriz Preciado sugere um modelo de sociedade no qual as pessoas não seriam mais compreendidas a partir de uma dicotomia de gênero, raça e classe social. Para o autor, é necessário criar uma nova estratégia social que rompa com os limites identitários impostos pela tecnologia do poder, que pressupõe que todas essas manifestações político-sociais situam o sujeito a um papel social pré-estabelecido.

Em seu livro, Preciado retoma ao pensamento de Judith Butler que aponta que a contrassexualidade não é a criação de uma nova natureza, pelo contrário, é mais o fim da Natureza como ordem que legitima a sujeição de certos corpos a outros. A contrassexualidade é, em primeiro lugar: uma análise crítica da diferença de gênero e de sexo, produto do contrato social heterocentrada cujas performatividades normativas foram inscritas nos corpos como verdades biológicas. No marco deste contrato contrassexual, os corpos reconhecem a si mesmos não como homens ou mulheres, mas sim como corpos falantes, passando a reconhecer os outros também como corpos falantes.

Ao nos apresentar essa nova proposta de organização social – mesmo que utópica – Preciado nos propõe pensamentos alternativos à norma heteronormativa cis centrada, alterando radicalmente nosso entendimento sobre o corpo, sexualidade e erotismo. Da crescente desse pensamento, o filósofo propõe o termo dildotectônica, para esclarecer de que maneira o dildo – noção dedicada ao “sexo de plástico” – interfere e compõe tecnicamente no sistema sexo/gênero. Dito de outro modo, o universo das sensibilidades e dos prazeres precisaria ser deslocado do órgão sexual masculino para outras áreas do corpo, invertendo, ou melhor, subvertendo a lógica heteronormativa que investe no órgão genital masculino como o principal produtor de prazer para si e para os outros.

Então, na dildotectonia de Preciado, haveria a possibilidade – estabelecida a partir de

tecnologia e ciência – de que sujeitos pudessem implantar aparelhos genitais, ou mesmo criar orifícios, ao longo do corpo. Uma vez que a noção de órgão genital está deslocada e descentralizada, muda-se drasticamente as relações interpessoais pautadas exclusivamente no falocentrismo heterocentrado, na qual o corpo funciona decisiva e majoritariamente a serviço da reprodução sexual e da produção de prazer genital. Nessa concepção, seria possível que um braço abrigasse um clitóris, um seio receber um ânus e o pênis estar implantado em outra extremidade do corpo, chegando assim ao que o artista denomina de Formas Contrassexuais.

Se valendo da discussão proposta por Paul Preciado é que Élle de Bernardini vem desenvolvendo sua pesquisa artística desde 2015, investigando quais seriam as possibilidades de composição de corpos dentro de uma nova proposta de sociedade. E m Corpo Expandido, a artista segue explorando a potencialidade de um corpo não dotado da noção de gênero – seja ele o masculino ou o feminino. Uma vez eliminado esse conceito, tais corpos estariam munidos da liberdade de gozar sua plenitude enquanto matéria.

Para sua primeira individual na Galeria Karla Osório, Élle apresenta uma série de trabalhos inéditos que repensam a funcionalidade do corpo a partir da criação de uma nova geografia corporal. Em El Cuero (2019), a artista segue no exercício de imaginação de tais novas possibilidades de composição geográfica corpórea. A partir da criação de um código próprio de zonas sexuais, Élle compõe telas que combinam os membros que servem para distinção de gênero, reconfigurando-os em uma nova ordem de leitura dos mesmos.

Nessa nova sociedade contrassexual, os corpos são pensados de forma expandida, apresentando configurações que não são mais exclusivas a homens ou a mulheres, trazendo a noção de um corpo geral, e não mais um corpo biológico. E aqui, neste conjunto de trabalhos, a artista acrescenta uma nova camada em seu discurso formal, ao explorar o couro como suporte para criação destes trabalhos, aproximando cada vez mais as obras à própria noção de corpo humano. Se em El Cuero, Élle utiliza do couro como subterfúgio para capturar a atenção do espectador, aproximando-o da discussão

proposta por ela, no conjunto de trabalhos Desejo, a artista traz como base o silicone, incitando a reflexão sobre o amplo uso do material para modificações corpóreas, que só reafirmam a imposição do peso da normatividade de gênero sobre os corpos de mulheres cis e trans.

No terceiro capítulo de seu livro, denominado Teorias, Preciado se volta para um contexto mais filosófico, onde reflete sobre como o sexo, pelo menos a partir do século XVIII, é o resultado de uma tecnologia biopolítica. Isto é, Preciado reflete sobre o processo de todo um complexo sistema de estruturas reguladoras que controlam a relação entre os corpos com a sexualidade e os usos atribuídos a eles. Neste capítulo, mesmo que sem adensar nessa discussão, o filósofo já nos introduz que para romper com tal contrato social regular, também é preciso adotar adotando categorias como classe e raça ao debate.

Em sua série Formas Contrassexuais, Élle aborda em que medidas tais subjetividades afetam ainda mais as relações do sujeito como um corpo ocupando uma sociedade normativa. Nas telas aqui apresentadas, observamos que a tela que serve de base para a construção das formas contrassexuais possuem tonalidades que remetem ao tom de pele, aludindo diretamente como corpos são lidos socialmente por esse viés. Em trabalhos anteriores da série, a artista já trabalhou com folha de ouro e feltro – inclusive o reciclado, comumente usado por moradores de rua – para lidar com o pensamento radical do fim da Natureza.

Observando o conjunto dos trabalhos propostos por Élle de Bernardini, percebe-se que apesar de se valer do, à princípio, radical pensamento de Paul Beatriz Preciado, interessa para a artista a construção de objetos de arte que funcionem como uma espécie de mediador entre público e as questões de gênero. Interessa à artista refletir como as tecnologias falham – e, de um modo ou de outro, falham constantemente como mostram, por exemplo, as subjetividades intersexuais. Sua preocupação é pensar como são produzidas descontinuidades, como são gerados interstícios, dobras de subjetivação ou incorporações desviantes.

Dessa forma, Élle nos apresenta sua série Peludinhos. Obras que dotadas de uma estética lúdica, convidam o público a explorar sensorialmente o trabalho. Nesse sentido, a artista assume um papel educativo ao mediar o contato do espectador com um novo tipo de corpo a partir do toque, assegurando que a sexualidade é algo a ser explorado em suas diversas formas. Ao romper com essa barreira entre público e obra de arte, Élle mostra que essa linguagem não é mais um objeto passivo, ela também é uma presença e tem uma fisicalidade.

É importante analisar neste contexto a tentativa da artista de expandir a noção de sexualidade. Os cuzinhos peludinhos convidam o público a explorar o orifício da tela, enfiando o dedo no buraco que representa o maior tabu sexual, em especial para os homens. Élle tem canalizado em suas obras a fetichização e a objetificação do corpo trans, tanto na sociedade, quanto no próprio circuito da arte. Ao assumir o esforço discursivo/educativo em seus trabalhos, Élle propõe um caminho de (re)conciliação social.

Ainda que todo esse caminho pareça utópico, ao propor a desconstrução da geografia corpórea tal como a conhecemos, a artista sugere como os corpos poderão ser compreendidos no futuro, criando um ponto de inflexão para a repolitização de categorias como o feminino, o animal, a natureza – que haviam sido pensados precisamente na própria fronteira da tecnologia biopolítica.

Em um ensaio para o caderno de cultura do periódico espanhol El País, Paul Beatriz Preciado diz que a transição de gênero “é necessariamente acompanhada disso que o escritor francês Édouard Glissant chama de “um tremor”. A travessia é o lugar da incerteza, da não-evidência, do estranho. E tudo isso não é uma fraqueza, mas um poder. “O pensamento do tremor”, diz Glissant, “não é o pensamento do medo. É o pensamento que se opõe ao sistema”. Dessa forma, podemos evocar no trabalho de Élle de Bernardini este tremor tão importante para o estabelecimento de novas formas de existência.