SÃO PAULO | ZÜRICH

 
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É sobre o afogamento, então?

É sobre o afogamento, então?
Zwei Arts

Fortuna Crítica
Paulo Lobo

É sobre o afogamento, então?

É sobre o afogamento, então?

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É sobre o afogamento, então?
Guilherme Teixeira

 

Alguma coisa sobrevive entre as pinturas de Paulo Lobo; alguma coisa que rasteja enquanto símbolo de uma efetivação à outra, e que nos faz questionar sobre o lugar da representação simbólica e suas aplicações, as babels que eles desencadeiam no calendário gregoriano, nos sincretismos, nos arcanos de Marselha, na boca de serpentes e nos umbigos que se afastam de seu antes; para utilizar as palavras de Ailton Krenak, quase-humanos que “por dançar uma coreografia estranha são tirados de cena por epidemias, pobreza, fome, violência dirigida.”. São, de certo modo, corpas que insistem em “ficar de fora dessa dança civilizada, da técnica, do controle do planeta”, sejam elas o folclore ou o mártir, o assassino em delírio trajado de couro ou a figura de um Deus de mil nomes do qual hoje só nos lembramos de um.

Os objetos nas pinturas de Lobo são dotados de uma capacidade cognitiva única de enunciar a si mesmos. A escolha de uma dramaturgia para acompanhar as pinturas não foi a toa: tanto tomava conta do que se apresentava ali, tudo gritava e precisava ser ouvido. Prometemos a nós mesmos que não ignoraríamos nenhuma voz; que o álcool, a chama e o carvão são tão agentes quanto o monge que queima e o que acende o fogo, a farda que pisa no pescoço e o corpo que sobra; uma casa e sua maldição;  um golem de mandioca e a nuvem que antecede a chuva.

É dado o modo como a pintura reproduz a história; não só quando faz do seu gesto um aceno para um recorte temporal específico, mas também como possibilita que outra perspectiva recaia sobre aquilo que ele enuncia. Quem matou Marielle, quem mandou matar a deputada? É dado também o saber de que a pintura, a partir de uma lógica própria desse suporte, é capaz de reconfigurar o que nos é sensível.

Há algo que dança e há algo que ecoa nessas pinturas. Talvez sejam as montanhas que querem fazer sua presença ouvida, com princípios de tempestade por trás das grandes manchas amarelas, ou a labareda que carboniza corpo, chumbo e concreto, que dissolve a narrativa e faz com que a voracidade do tempo nos pegue de sobressalto pela jugular e nos arremesse no canto escuro de uma cela.

Propomos aqui uma discussão sobre o afogamento dos mitos e os modos como suas vontades chegam pro hoje e, as vezes, arrasam nossa percepção no momento em que a metáfora dá conta, e a realidade muitas vezes se vê destituída de qualquer palpabilidade; em algum lugar das páginas que seguem, você provavelmente se deparará com manchas de cor que prenunciam um estado não tangível, um outro lugar onde a memória se exercita ao nos falar sobre as sombras, e também com aquilo que deixamos para trás ou esquecemos no futuro. Também se deparará com imagens de familiaridade imensa, de onde um íntimo se apresenta inaudito. Para além das imagens, mergulhará em uma narrativa espessa sobre aquilo feito trauma e aquilo feito potência, sobre violências passadas que ainda aterram, e horizontes complexos permeados de coisas que ainda não tiveram lugar na voz.

Um pássaro canta.
É um lamento.
Um homem é morrido.
Um pássaro canta.

Há algo que habita os construtores da floresta, algo que pula de uma figura para a outra e nos alenta com uma fantasmata sutil e que nos leva à afetividades de estranheza própria. Na figura daquela floresta que se desdobra por aproximadamente vinte metros, o eixo pelo qual nos deslocamos para sua fruição não muda; seja ele distância que torna a pintura uma, ou passada, ligeira ou não, que nos carrega por aquele entre. Há muito a ser dito ali, muito sobre aquilo que esquecemos de ouvir das montanhas; a escala vai na contramão da experiência modesta comum à busca expositiva do suporte. Que força corpo à distância e que abraça como que sussurrando à nuca um velho provérbio perdido.

Algo do hoje também ressoa, mesmo com o tempo ali sendo tão diluído, fracionado, presente enquanto endemia, pequena coisa que caminha sobre a gente. Como se também tivesse sido hoje que relembramos o que esquecemos pendurado em um canto. Uma boca imensa ressoa tudo. É dado o modo como a pintura ressoa a história. Alguma coisa sobrevive entre as pinturas de Paulo Lobo.

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