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Méthodo

São Paulo
16 Jan – 09 Fev 2019

Méthodo
Atelier do Centro

Méthodo
Trabalhos
Vistas da exposição
Atelier do Centro
Rubens Espírito Santo

Galeria Kogan Amaro São Paulo
Alameda Franca, 1054
Jardim Paulista, São Paulo, SP
info@galeriakoganamaro.com

O Atelier do Centro é um destes lugares intrigantes e radicais no meio das artes na cidade de São Paulo. Rubens Espírito Santo é um artista seminal. Rigoroso, metódico, sistemático e talentoso. Faz dos seus discípulos artistas — por bem ou por mal. O Atelier do Centro é um lugar de experimentação e formação artística — onde jovens se tornam capazes.
Eu tive a coragem de passar por lá.

Esse é o depoimento de um ex-aluno ou de um ex-jovem artista, que na própria fala tem a coragem de dizer ter tido “coragem” de ter frequentado o Atelier do Centro – lugar que não é para fracos. Precisa de determinação e muita vontade de fazer arte.

A arte como uma liturgia em que o corpo do artista é o próprio templo da criação, até mesmo com esforço físico se necessário, que pode levar a exaustação mental. Esse corpo é usado para a criação.

Pois bem. Primeiro, não saberia nominar os que frequentam hoje o Atelier localizado no centro de São Paulo – se estão na categoria de alunos ou já poderia chamá-los de artistas. Olhando para os trabalhos expostos na Emmathomas Galeria, na exposição Méthodo, diria que sim, são artistas. Meninas e meninos, jovens e os maiores que frequentam ou mesmo que fazem parte dessa confraria da arte que é o Atelier do Centro.

Talvez estejam mais para discípulos. Talvez estejam mais para artistas “autônomos” para o estágio de conhecimento e prática avançados que se encontram e que acompanham Rubens Espírito Santo nesse recorte apresentado na Emmathomas: Anna Israel, Gabriel Botta, Gabi Celan, Lila Loula e Lucas Parise.

No Atelier todos usam uniforme azul como operários padrão de linha de produção de fábrica. O trabalho é árduo e intenso. Disciplina para tudo sob os olhos e mãos do artista Rubens Espírito Santo. Trabalha-se com a cabeça e com o corpo. A arte no Atelier do Centro não é o único meio para transmitir a esses jovens artistas noções sobre vida, mas sim, uma forma de vida em si. São encontros que acontecem ali para pensar, desenvolver a criação e fazer arte. A transversalidade, tão em voga, é o norte do Méthodo aplicado no Atelier do Centro.

Estuda-se filosofia, estética, psicanálise, antropologia, mística, literatura, escrita, fala e tudo isso amalgamado pelas artes visuais. Surgem nomes de filósofos e pensadores bastante atuais para se pensar o contemporâneo, como Giorgio Agamben, Thierry de Duve, Roland Barthes, Adorno, Aby Warburg via Didi Huberman, Derrida, Lacan, Freud, Nietzsche, Foucault, entre outros. A lista é enorme.

É espaço de estudo, de encontro, de colaboração, de formação em arte e filosofia. Espaço de apanhar, literalmente, das ideias. E elas não vêm por acaso, a arte não é uma pedagogia e nem é uma tentativa de explicar o mundo, é antes uma reconfiguração do mundo sensível, contra a ideia de que o artista se faz por si mesmo, sozinho e para si, fechando-se em uma bolha. Os jovens artistas, juntos de Rubens Espírito Santo, trabalham harmoniosamente esse mundo sensível e a sensibilidade visual plástica. Ficam entre formas de arte e formas de vida.

O Méthodo do método.

O método não é fácil. Tem que resistir, tem que ter persistência. Tem que ter muita resistência física e intelectual para ultrapassar os dias com hora marcada para chegar e sair do Atelier. Não tem atraso ou enrolação para depois do horário. Tem que ter planejamento, metas e orientação diária. Saber o que vai fazer ali. É como se os artistas, diariamente, tivessem que escalar as paredes do lugar.

Anna Israel, de fato, ergueu o seu trabalho nas alturas. Foi preciso escalar as paredes de verdade. Subiu para instalar sua “escultura” ou instalação a cerca de quatro metros do chão. Tem que subir em andaimes para chegar na parede e fazer arte. Sacrificar-se. O ato criativo como um rito litúrgico.

Não é pintura sobre cavalete o que fazem ali. Até poderia ser. Nem desenho sobre a prancheta. Ou escultura de barro rodando no torno. Muito menos fotografar borboletas na vizinha Praça da República. Não é nada disso. Não é fácil fazer arte no Atelier do Centro: precisa provar que é capaz de fazer e criar com determinação. Não há inocência no gesto de fazer arte.

Na primeira visita e conversa com Rubens Espírito Santo e os artistas, fica evidente a hierarquia e a importância dessa estrutura para o méthodo da formação dos artistas do Atelier do Centro existir, que estão mais para discípulos ou seguidores de quem é mais experiente e consagrado, com mais coisas para dizer, mostrar e mais fundamento. Ouviu-se as histórias e trajetórias desses artistas. Cada um trouxe sua narrativa poética misturada com o drama de suas existências, formam os motivos que os levam a dividir aquele lugar. Dessas narrativas pessoais que encontram com a forma de pensar arte de RES é que criam os trabalhos de cada um.

Em um primeiro olhar para o conjunto que se vê pelas paredes e cantos do Atelier, os trabalhos parecem ter a mesma visualidade, o mesmo uso dos materiais e ferramentas. Mas não. Ao chegar em cada um percebe-se as sutilezas plásticas e conceituais que trazem para suas vivências artísticas e experiências estéticas individuais no ateliê coletivo. Por sinal, se assemelha muito aos ateliês terapêuticos. Pois o individuo é trabalhado no grupo.

Talvez já não se trate mais disso, de discípulos nessa exposição que busca trazer para o público a poética visual e individual de cada um.

Mas talvez de seguidores das ideias de RES.

Pode parecer que sim, já que é um lugar de artistas “desajustados”, quero dizer, não acomodados ou conformados, que necessitam diariamente escalar as paredes do local (desafios) para fazer arte e viver.

Uniformizados com macacões, coturnos, típica roupa pesada para grandes obras civis, empunham as ferramentas como os velhos lenhadores do “oeste brasileiro”. Românticos. Não eram mal intencionados, saiam para derrubada de grandes árvores para abrir picadas.

O lugar é coordenado com “mãos de ferro” pelo artista e filósofo Rubens Espírito Santo. Regras, disciplina, esquemas de trabalho. Escutar, falar, expor, ouvir, calar-se. Não pode rebelar-se. Tem que ouvir mais do que falar. Podem ser artistas ou não. Serem apenas curiosos, ouvintes ou observadores, para o que se trata de arte ali no Atelier. Sangue frio para suportar a pressão exercida pelo mestre. Teste de resistência moral, intelectual e artística em tempo integral.

Aprender a aceitação da crítica é superar as falhas, os sucessos, os erros e os descaminhos.

Um tratamento de choque plástico e conceitual é dado diariamente. Não há o que titubear, tem que ser objetivo com o pensamento, com a prática e o corpo. É jogar-se no abismo da arte do Atelier do Centro. Desenha, pinta-se e fotografa-se com o próprio corpo, sozinho ou com a ajuda de terceiros. Ou cria ou não cria. Inventa ou não inventa. Faz arte ou não faz arte. Se faz, siga o seu caminho. Se não faz, apenas escute, observe, participe, contribua ou não faça nada mesmo – basta estar ali, participar e contribuir, claro. Ninguém está acima de ninguém. Ninguém é melhor do que ninguém. Só o mestre está acima de todos, observando-se abaixo dele apenas uma hierarquia dada pelo tempo que frequenta o Atelier.

Diria ainda que é um excelente método. Primeiro ganho é o da humildade. De saber que pode errar. De saber que pode falhar. De saber que pode acertar. De que ninguém é melhor que ninguém. De saber que é igual ao outro.

O grande mal dos artistas é a mania de grandeza, do ego inflado. Desinflar esse ego parece ser uma tarefa diária do mestre. Diminuir o distanciamento do mundo real que está fora das paredes de um ateliê parece ser também mais uma das ações pedagógicas de RES com seus artistas discípulos. Trazê-los para a vida real, para uma outra realidade e fazer do que fazem uma forma de vida. São as ações transformadoras que se observa nessa relação de convívio e pensamento artístico proposto no Atelier do Centro.

Animam a exposição o mestre Rubens Espírito Santo (RES), Gabriel Botta, Anna Israel, Gabi Celan, Lila Loula e Luca Parise. Esses são os artistas que se apresentam na mostra Méthodo.

RES traz desenhos de açúcar, mas não são adocicados como sugerido pela técnica diversa que usa para realizar esses trabalhos.

Hexagramas, mapas, armas, “pinturas” de volumes e formas físicas são o seu universo plástico. Há uma precariedade exuberante desses materiais quando caem em suas mãos e são transformadoras. Matérias provenientes de refugos. Plásticos, restos de caixas de papelão, fita crepe e fitas adesivas de cores intensas são “moldados” adquirindo nova materialidade. Acúmulo e ressignificação ou, simplesmente, uma reorganização da plasticidade desses materiais religando-os, um aos outros, dando-lhes novas formas como a série de “armas” de fogo, de 2011.

Os desenhos de RES são viscerais, turbulentos nos traços e agressivos nas misturas de cores. Preto e amarelo vivos, por exemplo. A apresentação tem que ser impecável, para não dizer preciosa dos desenhos que não se definem figurativos nem abstratos. Podem formar figuras ou sugerir paisagens internas. É o que se vê na série dos desenhos descontrolados, de 2018.

Anna Israel é a relatora das aulas e, de certo modo, exerce uma liderança abaixo do mestre RES. Tem experiência e vivência no Atelier de longa data. Multiartista, Anna estudou cinema, escreve sobre arte e o méthodo RES, além de também ser colecionadora de arte. Para a exposição Méthodo teve como desafio apresentar duas fotos “bonitas” para agradar os olhos. Essa era a ordem pedida pelo grupo de maneira a descolar de imagens meio desoladoras que toma em lugares áridos, inóspitos e vazios, meio lúgubres.

Também como o mestre, acumula coisas que chegaram, passaram ou que foram encontradas pelo caminho. Tem uma série de caixas de vidros que funcionam como oratórios e é onde organiza esses objetos conferindo nessas arrumações uma atmosfera mística. Meio oratórios meio altares para cultos religiosos. Cria um magnetismo entre esses objetos, melhor um campo de força. Parece que estavam ali antes e de que ficarão para sempre naquela condição de objetos fossilizados e museificados.

Gabi Celan traz a Arma II – Bazuca, uma escultura suspensa construída em coautoria com Lila Loula durante as atividades da Cabana Frei Otto, de Rubens Espírito Santo, em Itu, na Fundação Marcos Amaro.

O trabalho escultórico é composto por uma talha elétrica com capacidade de 2 toneladas e, unida a esta, há uma estrutura construída com uma vareta giratória de churrasqueira, uma mangueira para água transparente com acabamento circular laranja, lâmpadas de led rosa e azul, lâmpada de osciloscópio, sensores de presença e motor à gasolina. Ao nos aproximarmos da arma ela dispara, pois o sensor de presença detecta o movimento. Toda ela dispara, não só uma parte ou uma luz acende, mas todo o corpo da arma acende.

A arma nos mira. Está apontado para quem a observa, de frente. Qualquer lugar no entorno da arma é mira e qualquer lugar fora da arma é disparo. Arma psicodélica, parece ter sido concebida para os dias atuais que tanto se fala e se faz gestos simbólicos e representativos do gesto de atirar, de apontar, de agredir o outro. No entanto, a arma de Celan e Loula é de luz, é inofensiva. Faz apenas alusão ao armamento.

Nos velhos galpões da fábrica de tecidos São Pedro, onde foi apresentada pela primeira vez, o objeto luminoso parecia reinar absoluto em meio ao caos ruinoso do lugar. Seduzia pela luz neon que emana de suas formas. É uma arma atávica, de outros tempos. Rudimentar e grosseira, nos aprisiona o olhar pelo contrário, na beleza da luz.

Luca Parise parece ser o mais discípulo de todos no Atelier do Centro de Rubens Espírito Santo. Como diz o ditado, é “pau para toda obra”, fazedor de tudo. Se desdobra em fazer coisas, organizar o lugar e criar.

Seu ateliê-casa, é o próprio ambiente de criação. Uma mistura de laboratório de investigações científicas da imagem com soluções práticas de viver. Fotografa e manipula suas imagens usando os recursos naturais de transformação encontrados na natureza. Criou uma estufa com vegetais, terra, compostos vegetais sobre mapoteca que guardam papéis fotográficos. A combinação da humidade provocada e os elementos naturais é que agem sobre os papéis colocados dentro das gavetas funciona como suporte. O resultado da construção dessa nova imagem é aleatório, não há domínio sobre as manchas. É uma forma de desenhar e pintar sobre fotografias.

Para a mostra Méthodo, Parise traz registros fotográficos do ARENA – espaço criado por RES para uma produção mais radical de arte por seus discípulos, onde o essencial é o rito da criação. Não há hierarquia nesse processo de trabalho, não há distinção entre o trabalho e o registro de sua produção.

Por fim, Gabriel Botta, o professor de desenho do méthodo RES. De fato, Botta tem um desenho e pintura a se destacar. Na série “Paisagens improdutivas”, Gabriel desenvolve três desenhos sobre papel de aquarela, utilizando diversas técnicas para chegar a um gesto, capturar a paisagem de si sem usar modos de desenho tradicional. A experiência do ato nestes desenhos é fundamental para que a paisagem produzida pela retina se descole e vire uma paisagem da ficção. A atmosfera de suas pinturas lembra aquelas imagens nebulosas vistas nos filmes do cineasta russo Andrei Tarkovisky. Fantasmagóricas como as cenas de filmes como Stalker e Solaris. Um outro mundo em suas pinturas sobre chapas de metal, caixas de luz descartadas conferindo-lhes um aspecto meio frio destacado da parede.

Arte é arte e tem que apreendê-la para saber fazer arte. E não se aprende arte sentado em um banco escolar. Arte aprende-se com o convívio, com a vida, junto de outros artistas, olhando outros artista e buscando suas referências no que já foi feito. Não se inventa nada do zero. O artista que vem antes sabe mais, tem mais tempo de vida. Tem ainda a força da experiência como motriz. O artista deve aceitar e suportar (dar suporte) ao outro e aceitar os erros e respeitar os acertos desse outro. Nada melhor para se iniciar com a arte ou ainda, método que também serve para quem já faz arte.

Ricardo Resende
Diretor Artístico
Galeria Emmathomas

Trabalhos

Paisagem improdutiva
Veja todos

Vistas da exposição

O Atelier do Centro

Comandado por Rubens Espírito Santos, o RES, e composto por mais de 30 artistas brasileiros e estrangeiros, com nomes como Anna Israel, Gabriela Celan, Gabriel Botta e Luca Parise. O coletivo está na ativa há mais de 20 anos, com ininterruptas produções artísticas e cursos de artes visuais. Os artistas usam suportes diversos, como escultura, desenho, pintura, fotografia e instalações. O cerne da produção do Atelier é o Méthodo, uma prática concebida por RES que soma conceitos como filosofia da arte, produção plástica e a transmissão da arte.

O grupo está concentrado em cinco galpões, em locais como Valongo, bairro do litoral paulistano de Santos, e na Espanha.

Rubens Espírito Santo

Rubens Espírito Santo (São José dos Campos, 1966) é artista, pedagogo e pensador. Em 2000, funda o Atelier do Centro, ativo desde então na Rua Epitácio Pessoa, centro de São Paulo. Estuda estética, filosofia, teoria da arte, psicanálise e literatura. Expôs no Instituto Tomie Ohtake, na Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Centro Cultural São Paulo. É vencedor do prêmio Funarte (2009 – 2010) e do Rumos Itaú Cultural (2005).

Méthodo
Trabalhos
Vistas da exposição
Atelier do Centro
Rubens Espírito Santo

Galeria Kogan Amaro São Paulo
Alameda Franca, 1054
Jardim Paulista, São Paulo, SP
info@galeriakoganamaro.com

O Atelier do Centro é um destes lugares intrigantes e radicais no meio das artes na cidade de São Paulo. Rubens Espírito Santo é um artista seminal. Rigoroso, metódico, sistemático e talentoso. Faz dos seus discípulos artistas — por bem ou por mal. O Atelier do Centro é um lugar de experimentação e formação artística — onde jovens se tornam capazes.
Eu tive a coragem de passar por lá.

Esse é o depoimento de um ex-aluno ou de um ex-jovem artista, que na própria fala tem a coragem de dizer ter tido “coragem” de ter frequentado o Atelier do Centro – lugar que não é para fracos. Precisa de determinação e muita vontade de fazer arte.

A arte como uma liturgia em que o corpo do artista é o próprio templo da criação, até mesmo com esforço físico se necessário, que pode levar a exaustação mental. Esse corpo é usado para a criação.

Pois bem. Primeiro, não saberia nominar os que frequentam hoje o Atelier localizado no centro de São Paulo – se estão na categoria de alunos ou já poderia chamá-los de artistas. Olhando para os trabalhos expostos na Emmathomas Galeria, na exposição Méthodo, diria que sim, são artistas. Meninas e meninos, jovens e os maiores que frequentam ou mesmo que fazem parte dessa confraria da arte que é o Atelier do Centro.

Talvez estejam mais para discípulos. Talvez estejam mais para artistas “autônomos” para o estágio de conhecimento e prática avançados que se encontram e que acompanham Rubens Espírito Santo nesse recorte apresentado na Emmathomas: Anna Israel, Gabriel Botta, Gabi Celan, Lila Loula e Lucas Parise.

No Atelier todos usam uniforme azul como operários padrão de linha de produção de fábrica. O trabalho é árduo e intenso. Disciplina para tudo sob os olhos e mãos do artista Rubens Espírito Santo. Trabalha-se com a cabeça e com o corpo. A arte no Atelier do Centro não é o único meio para transmitir a esses jovens artistas noções sobre vida, mas sim, uma forma de vida em si. São encontros que acontecem ali para pensar, desenvolver a criação e fazer arte. A transversalidade, tão em voga, é o norte do Méthodo aplicado no Atelier do Centro.

Estuda-se filosofia, estética, psicanálise, antropologia, mística, literatura, escrita, fala e tudo isso amalgamado pelas artes visuais. Surgem nomes de filósofos e pensadores bastante atuais para se pensar o contemporâneo, como Giorgio Agamben, Thierry de Duve, Roland Barthes, Adorno, Aby Warburg via Didi Huberman, Derrida, Lacan, Freud, Nietzsche, Foucault, entre outros. A lista é enorme.

É espaço de estudo, de encontro, de colaboração, de formação em arte e filosofia. Espaço de apanhar, literalmente, das ideias. E elas não vêm por acaso, a arte não é uma pedagogia e nem é uma tentativa de explicar o mundo, é antes uma reconfiguração do mundo sensível, contra a ideia de que o artista se faz por si mesmo, sozinho e para si, fechando-se em uma bolha. Os jovens artistas, juntos de Rubens Espírito Santo, trabalham harmoniosamente esse mundo sensível e a sensibilidade visual plástica. Ficam entre formas de arte e formas de vida.

O Méthodo do método.

O método não é fácil. Tem que resistir, tem que ter persistência. Tem que ter muita resistência física e intelectual para ultrapassar os dias com hora marcada para chegar e sair do Atelier. Não tem atraso ou enrolação para depois do horário. Tem que ter planejamento, metas e orientação diária. Saber o que vai fazer ali. É como se os artistas, diariamente, tivessem que escalar as paredes do lugar.

Anna Israel, de fato, ergueu o seu trabalho nas alturas. Foi preciso escalar as paredes de verdade. Subiu para instalar sua “escultura” ou instalação a cerca de quatro metros do chão. Tem que subir em andaimes para chegar na parede e fazer arte. Sacrificar-se. O ato criativo como um rito litúrgico.

Não é pintura sobre cavalete o que fazem ali. Até poderia ser. Nem desenho sobre a prancheta. Ou escultura de barro rodando no torno. Muito menos fotografar borboletas na vizinha Praça da República. Não é nada disso. Não é fácil fazer arte no Atelier do Centro: precisa provar que é capaz de fazer e criar com determinação. Não há inocência no gesto de fazer arte.

Na primeira visita e conversa com Rubens Espírito Santo e os artistas, fica evidente a hierarquia e a importância dessa estrutura para o méthodo da formação dos artistas do Atelier do Centro existir, que estão mais para discípulos ou seguidores de quem é mais experiente e consagrado, com mais coisas para dizer, mostrar e mais fundamento. Ouviu-se as histórias e trajetórias desses artistas. Cada um trouxe sua narrativa poética misturada com o drama de suas existências, formam os motivos que os levam a dividir aquele lugar. Dessas narrativas pessoais que encontram com a forma de pensar arte de RES é que criam os trabalhos de cada um.

Em um primeiro olhar para o conjunto que se vê pelas paredes e cantos do Atelier, os trabalhos parecem ter a mesma visualidade, o mesmo uso dos materiais e ferramentas. Mas não. Ao chegar em cada um percebe-se as sutilezas plásticas e conceituais que trazem para suas vivências artísticas e experiências estéticas individuais no ateliê coletivo. Por sinal, se assemelha muito aos ateliês terapêuticos. Pois o individuo é trabalhado no grupo.

Talvez já não se trate mais disso, de discípulos nessa exposição que busca trazer para o público a poética visual e individual de cada um.

Mas talvez de seguidores das ideias de RES.

Pode parecer que sim, já que é um lugar de artistas “desajustados”, quero dizer, não acomodados ou conformados, que necessitam diariamente escalar as paredes do local (desafios) para fazer arte e viver.

Uniformizados com macacões, coturnos, típica roupa pesada para grandes obras civis, empunham as ferramentas como os velhos lenhadores do “oeste brasileiro”. Românticos. Não eram mal intencionados, saiam para derrubada de grandes árvores para abrir picadas.

O lugar é coordenado com “mãos de ferro” pelo artista e filósofo Rubens Espírito Santo. Regras, disciplina, esquemas de trabalho. Escutar, falar, expor, ouvir, calar-se. Não pode rebelar-se. Tem que ouvir mais do que falar. Podem ser artistas ou não. Serem apenas curiosos, ouvintes ou observadores, para o que se trata de arte ali no Atelier. Sangue frio para suportar a pressão exercida pelo mestre. Teste de resistência moral, intelectual e artística em tempo integral.

Aprender a aceitação da crítica é superar as falhas, os sucessos, os erros e os descaminhos.

Um tratamento de choque plástico e conceitual é dado diariamente. Não há o que titubear, tem que ser objetivo com o pensamento, com a prática e o corpo. É jogar-se no abismo da arte do Atelier do Centro. Desenha, pinta-se e fotografa-se com o próprio corpo, sozinho ou com a ajuda de terceiros. Ou cria ou não cria. Inventa ou não inventa. Faz arte ou não faz arte. Se faz, siga o seu caminho. Se não faz, apenas escute, observe, participe, contribua ou não faça nada mesmo – basta estar ali, participar e contribuir, claro. Ninguém está acima de ninguém. Ninguém é melhor do que ninguém. Só o mestre está acima de todos, observando-se abaixo dele apenas uma hierarquia dada pelo tempo que frequenta o Atelier.

Diria ainda que é um excelente método. Primeiro ganho é o da humildade. De saber que pode errar. De saber que pode falhar. De saber que pode acertar. De que ninguém é melhor que ninguém. De saber que é igual ao outro.

O grande mal dos artistas é a mania de grandeza, do ego inflado. Desinflar esse ego parece ser uma tarefa diária do mestre. Diminuir o distanciamento do mundo real que está fora das paredes de um ateliê parece ser também mais uma das ações pedagógicas de RES com seus artistas discípulos. Trazê-los para a vida real, para uma outra realidade e fazer do que fazem uma forma de vida. São as ações transformadoras que se observa nessa relação de convívio e pensamento artístico proposto no Atelier do Centro.

Animam a exposição o mestre Rubens Espírito Santo (RES), Gabriel Botta, Anna Israel, Gabi Celan, Lila Loula e Luca Parise. Esses são os artistas que se apresentam na mostra Méthodo.

RES traz desenhos de açúcar, mas não são adocicados como sugerido pela técnica diversa que usa para realizar esses trabalhos.

Hexagramas, mapas, armas, “pinturas” de volumes e formas físicas são o seu universo plástico. Há uma precariedade exuberante desses materiais quando caem em suas mãos e são transformadoras. Matérias provenientes de refugos. Plásticos, restos de caixas de papelão, fita crepe e fitas adesivas de cores intensas são “moldados” adquirindo nova materialidade. Acúmulo e ressignificação ou, simplesmente, uma reorganização da plasticidade desses materiais religando-os, um aos outros, dando-lhes novas formas como a série de “armas” de fogo, de 2011.

Os desenhos de RES são viscerais, turbulentos nos traços e agressivos nas misturas de cores. Preto e amarelo vivos, por exemplo. A apresentação tem que ser impecável, para não dizer preciosa dos desenhos que não se definem figurativos nem abstratos. Podem formar figuras ou sugerir paisagens internas. É o que se vê na série dos desenhos descontrolados, de 2018.

Anna Israel é a relatora das aulas e, de certo modo, exerce uma liderança abaixo do mestre RES. Tem experiência e vivência no Atelier de longa data. Multiartista, Anna estudou cinema, escreve sobre arte e o méthodo RES, além de também ser colecionadora de arte. Para a exposição Méthodo teve como desafio apresentar duas fotos “bonitas” para agradar os olhos. Essa era a ordem pedida pelo grupo de maneira a descolar de imagens meio desoladoras que toma em lugares áridos, inóspitos e vazios, meio lúgubres.

Também como o mestre, acumula coisas que chegaram, passaram ou que foram encontradas pelo caminho. Tem uma série de caixas de vidros que funcionam como oratórios e é onde organiza esses objetos conferindo nessas arrumações uma atmosfera mística. Meio oratórios meio altares para cultos religiosos. Cria um magnetismo entre esses objetos, melhor um campo de força. Parece que estavam ali antes e de que ficarão para sempre naquela condição de objetos fossilizados e museificados.

Gabi Celan traz a Arma II – Bazuca, uma escultura suspensa construída em coautoria com Lila Loula durante as atividades da Cabana Frei Otto, de Rubens Espírito Santo, em Itu, na Fundação Marcos Amaro.

O trabalho escultórico é composto por uma talha elétrica com capacidade de 2 toneladas e, unida a esta, há uma estrutura construída com uma vareta giratória de churrasqueira, uma mangueira para água transparente com acabamento circular laranja, lâmpadas de led rosa e azul, lâmpada de osciloscópio, sensores de presença e motor à gasolina. Ao nos aproximarmos da arma ela dispara, pois o sensor de presença detecta o movimento. Toda ela dispara, não só uma parte ou uma luz acende, mas todo o corpo da arma acende.

A arma nos mira. Está apontado para quem a observa, de frente. Qualquer lugar no entorno da arma é mira e qualquer lugar fora da arma é disparo. Arma psicodélica, parece ter sido concebida para os dias atuais que tanto se fala e se faz gestos simbólicos e representativos do gesto de atirar, de apontar, de agredir o outro. No entanto, a arma de Celan e Loula é de luz, é inofensiva. Faz apenas alusão ao armamento.

Nos velhos galpões da fábrica de tecidos São Pedro, onde foi apresentada pela primeira vez, o objeto luminoso parecia reinar absoluto em meio ao caos ruinoso do lugar. Seduzia pela luz neon que emana de suas formas. É uma arma atávica, de outros tempos. Rudimentar e grosseira, nos aprisiona o olhar pelo contrário, na beleza da luz.

Luca Parise parece ser o mais discípulo de todos no Atelier do Centro de Rubens Espírito Santo. Como diz o ditado, é “pau para toda obra”, fazedor de tudo. Se desdobra em fazer coisas, organizar o lugar e criar.

Seu ateliê-casa, é o próprio ambiente de criação. Uma mistura de laboratório de investigações científicas da imagem com soluções práticas de viver. Fotografa e manipula suas imagens usando os recursos naturais de transformação encontrados na natureza. Criou uma estufa com vegetais, terra, compostos vegetais sobre mapoteca que guardam papéis fotográficos. A combinação da humidade provocada e os elementos naturais é que agem sobre os papéis colocados dentro das gavetas funciona como suporte. O resultado da construção dessa nova imagem é aleatório, não há domínio sobre as manchas. É uma forma de desenhar e pintar sobre fotografias.

Para a mostra Méthodo, Parise traz registros fotográficos do ARENA – espaço criado por RES para uma produção mais radical de arte por seus discípulos, onde o essencial é o rito da criação. Não há hierarquia nesse processo de trabalho, não há distinção entre o trabalho e o registro de sua produção.

Por fim, Gabriel Botta, o professor de desenho do méthodo RES. De fato, Botta tem um desenho e pintura a se destacar. Na série “Paisagens improdutivas”, Gabriel desenvolve três desenhos sobre papel de aquarela, utilizando diversas técnicas para chegar a um gesto, capturar a paisagem de si sem usar modos de desenho tradicional. A experiência do ato nestes desenhos é fundamental para que a paisagem produzida pela retina se descole e vire uma paisagem da ficção. A atmosfera de suas pinturas lembra aquelas imagens nebulosas vistas nos filmes do cineasta russo Andrei Tarkovisky. Fantasmagóricas como as cenas de filmes como Stalker e Solaris. Um outro mundo em suas pinturas sobre chapas de metal, caixas de luz descartadas conferindo-lhes um aspecto meio frio destacado da parede.

Arte é arte e tem que apreendê-la para saber fazer arte. E não se aprende arte sentado em um banco escolar. Arte aprende-se com o convívio, com a vida, junto de outros artistas, olhando outros artista e buscando suas referências no que já foi feito. Não se inventa nada do zero. O artista que vem antes sabe mais, tem mais tempo de vida. Tem ainda a força da experiência como motriz. O artista deve aceitar e suportar (dar suporte) ao outro e aceitar os erros e respeitar os acertos desse outro. Nada melhor para se iniciar com a arte ou ainda, método que também serve para quem já faz arte.

Ricardo Resende
Diretor Artístico
Galeria Emmathomas

Trabalhos

Paisagem improdutiva
Veja todos

Vistas da exposição

O Atelier do Centro

Comandado por Rubens Espírito Santos, o RES, e composto por mais de 30 artistas brasileiros e estrangeiros, com nomes como Anna Israel, Gabriela Celan, Gabriel Botta e Luca Parise. O coletivo está na ativa há mais de 20 anos, com ininterruptas produções artísticas e cursos de artes visuais. Os artistas usam suportes diversos, como escultura, desenho, pintura, fotografia e instalações. O cerne da produção do Atelier é o Méthodo, uma prática concebida por RES que soma conceitos como filosofia da arte, produção plástica e a transmissão da arte.

O grupo está concentrado em cinco galpões, em locais como Valongo, bairro do litoral paulistano de Santos, e na Espanha.

Rubens Espírito Santo

Rubens Espírito Santo (São José dos Campos, 1966) é artista, pedagogo e pensador. Em 2000, funda o Atelier do Centro, ativo desde então na Rua Epitácio Pessoa, centro de São Paulo. Estuda estética, filosofia, teoria da arte, psicanálise e literatura. Expôs no Instituto Tomie Ohtake, na Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Centro Cultural São Paulo. É vencedor do prêmio Funarte (2009 – 2010) e do Rumos Itaú Cultural (2005).

www.mersinlife.org - www.mersinbakliyat.com - www.escort-izmir.org - www.samsuni.net - www.ankara-escort.asia - www.amasyaescort.org - www.istanbulbescort.com - www.izmir-eskort.org - www.eskisehires.com - www.tiktakmersin.comwww.mersinlife.org - www.mersinbakliyat.com - www.escort-izmir.org - www.samsuni.net - www.ankara-escort.asia - www.amasyaescort.org - www.istanbulbescort.com - www.izmir-eskort.org - www.eskisehires.com - www.tiktakmersin.comwww.mersinlife.org - www.mersinbakliyat.com - www.escort-izmir.org - www.samsuni.net - www.ankara-escort.asia - www.amasyaescort.org - www.istanbulbescort.com - www.izmir-eskort.org - www.eskisehires.com - www.tiktakmersin.com