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Vozes Mundanas

São Paulo
25 Jul – 25 Ago 2018

Vozes Mundanas
Mundano

Vozes Mundanas
Trabalhos
Vistas da exposição
Vídeo
Mundano

Galeria Kogan Amaro São Paulo
Alameda Franca, 1054
Jardim Paulista, São Paulo, SP
info@galeriakoganamaro.com

O trágico mundo de Mundano. O verdadeiro artista é aquele que ajuda o mundo revelando suas verdades, seus conflitos e, inclusive, sua beleza. Essa é até fácil de representar na arte. Difícil mesmo é o contrário. Isso porque a beleza para certos artistas não está propriamente atrelada ao que comumente consideramos belo. Esse sequer é levado em consideração por uma parcela dos mesmos, pois pode estar no que consideramos feio naquilo que descartamos, nas nossas mazelas, na terra arrasada e, até mesmo, em um muro cinza.

Para esses (alguns), a beleza está nos contrastes, no que não é bem definido, no que incomoda, no que é desajeitado, no que é estranho e, principalmente, no que é trágico.

A tragédia, “na linguagem do dia a dia, a palavra significa algo como ‘muito triste’” (Terry Eagleton, UNESP, 2013). Por outro lado, seria também o lugar de reflexão da condição humana fundamental – a da resistência, da autoafirmação, da tolerância, da sabedoria, da paz, da denúncia, da firmeza e de seus contrários. E, também, a passagem do Homem pela Terra com todos os seus problemas sociais, políticos e ambientais – vistos na atualidade – é trágica. É uma verdadeira tragédia o que vivemos e assistimos no mundo político e social. Contudo, aceitamos o seu rastro com certa complacência. Poderíamos dizer até que se trata de uma forma de insanidade o que o próprio homem tem causado para si e para a natureza.

Cabe aos artistas, como Mundano, manifestar-se diante desses descaminhos da sociedade. Expressar essa tragédia através do trabalho não só plástico, mas também conceitual com a visualidade da arte de rua, da pichação e do graffiti culminam numa estética denominada de gambiarra,

Mundano denota pouca preocupação na criação de objetos de arte para se levar para a parede, incólumes a decorar uma casa. O que percebemos em sua obra, nesses muitos anos que tem de atuação e trabalho, é que o objetivo que abriga sua criação vem de outra fonte que não a estética ou de coisas ditas belas – como uma escultura ou pintura nos seus sentidos estritos que seguem os cânones acadêmicos da arte (clássica).

Gera uma incerteza ao nos depararmos com essa mostra individual na Emmathomas Galeria. A grande instalação ou os trabalhos na sua individualidade são antes uma forma de manifestar-se. É o que pinta, esculpe ou instala. São manifestos.

O que faz é, de certo modo, uma arte “ansiosa”, parafraseando o crítico de arte norte americano Harold Rosenberg (1906-1978 – em Objeto Ansioso, Cosac & Naify, 2004). “A ansiedade da é uma espécie peculiar de insight. Surge não como um reflexo da condição dos artistas, mas como resultado da reflexão que eles fazem sobre o papel da arte entre outras atividades humanas.”

Tanto a ansiedade quanto a angústia são portadoras da inquietação, o que faz delas uma qualidade filosófica que permite o artista perceber que são essenciais para o ato da criação. Essa ansiedade faz com que os artistas questionem a própria ideia de arte ao alargar esse entendimento.

Portanto, essa “ansiedade artística” fez com que o espaço expositivo da galeria viesse a ser todo transformado para configurar uma grande instalação em que chão e paredes tornaram-se uma coisa só: uma paisagem trágica, meio urbana, meio periférica, ansiosa e feia – como partes representadas da realidade.

O seu manifesto (ansioso e angustiante) está nas suas esculturas, pinturas e instalações, como formas inconformadas de posicionar-se politicamente no mundo. A surpresa é que o que estava fora foi para dentro. O muro que separa o mundo real do fictício foi instalado na sala expositiva para ser, ele mesmo, o objeto artístico mais ansioso, agressivo e claustrofóbico da mostra.
Atravessar o Muro Social – obra de grandes proporções que delimita a mostra – é uma referência aos diversos muros que nos habitam. Entre eles, o muro que separava Berlim Ocidental da Oriental. Mais recentemente, o de Israel construído para isolar-se da Palestina e o mais recente e polêmico, que indica a nova ordem mundial: o de Donald Trump, feito para impedir a entrada dos imigrantes pela fronteira com o México. O mais comum de todos: o que faz parte do nosso quotidiano nas cidades e, agora, no campo. O muro que separa as realidades sociais distintas vistas e sentidas. Muros que são erguidos bloqueando espaços públicos.

Ao adentrar a sala de exposição, deparamo-nos com câmaras de segurança a nos espreitar, transformada na extensão da rua. Já na entrada da galeria, antes do muro mimetizado, há uma escultura na forma de gente feita com extintores de incêndio transformados e ressignificados. A figura é um ativista que carrega um megafone, como que a berrar palavras de ordem em frente ao prédio que abriga a galeria na Alameda Franca, localizada no meio dos bairros residenciais dos jardins paulistanos. O artista produz esculturas de sucata com extintores de incêndio, panelas velhas e quebradas, restos de válvulas e bombas de gasolina, que tomam forma de armas, pregos que viram espinhos dos gigantescos cactos feitos, novamente, a partir de extintores.

A arte de rua, dentro de uma galeria, é o graffiti que se mistura com a pintura. Chão de papelão, recolhido com os catadores de materiais recicláveis, que, depois, foram grafitados de maneira a desenhar um solo terroso árido, que nos faz lembrar a seca que abate a cidade e suas represas de água.

De um lado, a tinta cinza em alusão às vozes e cores caladas nas ruas de São Paulo. Do outro, telas, esculturas, objetos e instalações de cores vivas e pulsantes – ruídos que fazem referência a uma série de problemáticas da atualidade: dos impactos ocasionados pela crise de água à questão dos refugiados em diversos pontos do globo.

É esse o tom de Vozes Mundanas, primeira individual do artista Mundano na Emmathomas, conhecido internacionalmente pelo projeto PimpMyCarroça, ONG criada em 2012, que leva arte mundo afora para ampliar a voz e dar visibilidade aos catadores de materiais recicláveis de grandes cidades em todo mundo.

Essa exposição poderia ser um pretenso recurso para uma revolução social. Ao propor um muro dentro da galeria, Mundano quer nos chamar a atenção para a nossa própria ideia de autoconfinamento. Uma forma contemporânea de viver. Acredita-se que temos liberdade dentro de quatro muros ou paredes. É uma falsa ideia. Pelo contrário. Essa condição nos retira do convívio com as pessoas e limita o direito ir e vir. Exclui-nos dos espaços coletivos da cidade. Ficamos isoladas das ruas.

Mundano não só cria a sensação do confinamento claustrofóbico para o visitante, como também o joga numa paisagem inóspita, interna. Criada como uma pintura sobre papelão que recobre o chão da galeria, mimetizando a ideia de uma terra arrasada pela seca e pela falta de água que assola as grandes cidades do mundo.

Sobre o muro se vislumbra um céu azul coalhado de nuvens brancas e cinzas, feitas de sacos plásticos sujos, aludindo a um céu contaminado. A exposição toda leva a crer que é o “mundo do País das Sete Maravilhas de Alice” virado às avessas.

Pinturas de paisagens humanas se espalham pelas paredes muradas da sala. Uma a se destacar é a de uma paisagem bucólica, vista comum nas pinturas acadêmicas do final do século XIX, em que vemos um rio ladeado de vegetação. Céu azul acinzentado, verde esmaecido pelo tempo das nossas florestas e um espelho de água. A tela foi encontrada em um carrinho de catador de material reciclável e comprada por dez reais. Pensava-se anônimo o seu autor. Mas não. Tem origem mesmo tendo sido completamente descartada no lixo. Mundano apropria-se da pintura e no lugar do espelho d’água, pinta com a lama herdada do trágico acidente das barragens rompidas da empresa de mineração Samarco, que derramou lama marrom amarelada, de cor “doente”, contaminada por resíduos letais de metais pesados no Rio Doce, que corta três estados: Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Não sobrou nada da vida do rio e a comunidade ribeirinha ficou comprometida.

O artista faz uma contundente denúncia poético-ecológica usando essa pintura, transformando-a em uma tela com uma temática bastante contemporânea. É como se pegasse um de seus megafones que aparecem em todos os trabalhos como o maior símbolo de seu ativismo. Urgente e necessário.

Mundano, na verdade, propõe a conscientização e convida o público para resistir em prol da preservação ambiental e por causas ligadas aos direitos humanos que, hoje em dia, são banalizados e ridicularizados. Como se o sentido de humanidade não valesse mais quando se observa o mundo em que prevalece o individualismo, a banalidade e a competição nas relações humanas como bens maiores a serem cultivados.

O corpo da obra de Mundano surge de peças e instrumentos de reuso que ele mesmo encontra nas ruas ou daquilo que os catadores de materiais recicláveis oferecem a ele. Dessa busca, o reaproveitamento de insumos como livros que datam 100 anos ou mesmo revistas descartadas que, nas mãos do artista, se transformaram em colagens, representam o consumismo e o desperdício.
Figura quase onipresente na exposição, o megafone, recurso bastante comum às manifestações sociais, é representado em diversas obras, ora ampliando a voz das mulheres, ora salvando dezenas de refugiados à deriva no mar. O objeto aparece também em Panelafone, obra que faz referência aos panelaços, tão presentes em manifestações não só no Brasil. Inventado na Argentina na década de 1980, o panelaço, atualmente, caiu em desuso, mesmo diante de uma famigerada classe política e empresarial envolvida cotidianamente em malfeitos deslavados.
O cacto, outra imagem emblemática a povoar seus trabalhos, personifica a crise hídrica que assola o país e a complacência do povo brasileiro, acostumado a resistir às adversidades, mesmo recebendo poucos recursos dos seus governantes. As plantas trans são construídas a partir de extintores, torneiras, pregos e outros materiais que foram reutilizados conferindo-lhes humor à arte.
Mundano utilizou-se na maioria dos trabalhos da lama tóxica coletada às margens do Rio Doce – o pigmento terroso que contrasta com a paleta de cores característica do artista – verdes vivos, azuis turbinados e vermelhos intensos. O uso desses resíduos como matéria-prima para expressar sua arte são tapas na cara dos incautos.
Ele descreve-se como artivista, tomando sua arte como instrumento para revolução social, seja pela intervenção no espaço público, em galerias de arte ou mesmo pelas palestras que realiza. Sua luta é sempre a mesma: dar visibilidade e amplificar as vozes daqueles que são, muitas vezes, ignorados pelos cidadãos e pelas autoridades. É um autodidata: grafiteiro e ativista, termo quase mal visto na atualidade, procura questionar o comportamento social por meio de intervenções nas carroças que passam a carregar, em sua maioria, frases de impacto inspiradas no contexto local.

A arte aliada ao ativismo é uma poderosa ferramenta de transformação social. Ver um artista ainda disposto a manifestar-se, a preocupar-se com o outro, com o coletivo nas paredes de uma galeria de arte, é um alento. A Emmathomas, ao trazer o artivista Mundano com suas questões expressas no espaço expositivo, arrisca-se com a potência da obra, que incomoda, provoca e gera combustível para reflexão dos caminhos da humanidade. Debate necessário em um contexto de resistência na atual conjuntura política do país, em que forças religiosas e conservadoras tomam o poder e querem impor dogmas ou mesmo descrença na humanidade.

De certo modo, ao observar o processo de criação do artista, percebemos uma organicidade e contrariamente, mas positivamente, uma desorganização motivada pelo contexto social em que o artista vive. Como agora: o de trazer sua obra para o âmbito de uma galeria comercial. O grande desafio dessa mostra na Emmathomas é manter ou permanecer com as veias de artivista íntegras e ativadas no espaço comercial de arte.

Os traços que compõem seus graffitis e, consequentemente, suas telas, são simplificados para atender a necessidade de rapidez para grafitar e pichar os muros da cidade. Como característica dessa velocidade, os personagens são facilmente reconhecíveis pelos traços marcantes: narinas e lábios avantajados. Os olhos são arregalados e expressam ora indiferença, ora espanto. O verde é a cor predominante, aferindo-lhes um aspecto de personagens de quadrinhos. Palavras de ordem de ativismo ecológico juntam-se, colocando os personagens na condição de protestantes, de imigrantes ilegais, de excluídos e invisíveis sociais quando no meio de multidões.

A visão geral de suas pinturas e graffitis é aquela vista nos desenhos de quadrinistas dos anos 60 e 70. Como os de Mundano: caóticos, dramáticos e, por vezes, trágicos e catastróficos, ao alterar as formas humanas tornando-as uma espécie de humanoides na cor verde, fazendo referência à natureza e a animalidade. Personagens que parecem ter saído dos escombros da sociedade ou das tubulações de esgoto.

Há uma inconformidade nas ações, posturas e ideias de Mundano, que torna seus graffitis ativistas necessários diante da conjuntura nacional onde tudo parece passar despercebido pela maioria da população.

Os cactos, que vivem em regiões áridas, caracterizados pela resistência à falta de água ao armazenar, no próprio tronco, reservas de água para sua subsistência, são transformados em escultura viva por Mundano, que insere torneiras metálicas, conferindo-lhes um caráter fantástico e irônico às crises hídricas. Também aparecem com muito humor na forma de tubos de extintores de incêndios, unidos de forma a reproduzir o formato dessa planta.

Com humor, Mundano fala de problemas contemporâneos que assolam a sociedade. Artista e obra trazem um frescor à arte e ao ativismo da rua, agora, para dentro da Emmathomas.

Trabalhos

Mundano
Veja todos

Vistas da exposição

Vídeo

Mundano

São Paulo, São Paulo – Brasil, 1986
Vive e trabalha em São Paulo

MUNDANO é um artivista, nascido na cidade de São Paulo e reconhecido internacionalmente por seu graffiti “paporreto”, seja no espaço público, ou em mais de 320 carroças dos catadores de materiais recicláveis. O grafiteiro e ativista procura questionar conceitos e comportamentos dos cidadãos e das autoridades através de intervenções que carregam em sua maioria frases de impacto inspiradas no contexto local. A preservação do meio ambiente e os direitos humanos universais são a base de seu ativismo que transcende as tintas.

Mundano é Ashoka e TED Fellow, fundador da ONG Pimp My Carroça e premiado na área de arte pública, direitos humanos, criatividade e inovação digital. O incansável artivista já definiu sua missão de vida: criar um legado ambiental e social com sua arte. Para cumprir esse desafio, nos últimos 10 anos fez intervenções, exposições e palestras por mais de 40 cidades do Brasil e do mundo.

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Galeria Kogan Amaro São Paulo
Alameda Franca, 1054
Jardim Paulista, São Paulo, SP
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O trágico mundo de Mundano. O verdadeiro artista é aquele que ajuda o mundo revelando suas verdades, seus conflitos e, inclusive, sua beleza. Essa é até fácil de representar na arte. Difícil mesmo é o contrário. Isso porque a beleza para certos artistas não está propriamente atrelada ao que comumente consideramos belo. Esse sequer é levado em consideração por uma parcela dos mesmos, pois pode estar no que consideramos feio naquilo que descartamos, nas nossas mazelas, na terra arrasada e, até mesmo, em um muro cinza.

Para esses (alguns), a beleza está nos contrastes, no que não é bem definido, no que incomoda, no que é desajeitado, no que é estranho e, principalmente, no que é trágico.

A tragédia, “na linguagem do dia a dia, a palavra significa algo como ‘muito triste’” (Terry Eagleton, UNESP, 2013). Por outro lado, seria também o lugar de reflexão da condição humana fundamental – a da resistência, da autoafirmação, da tolerância, da sabedoria, da paz, da denúncia, da firmeza e de seus contrários. E, também, a passagem do Homem pela Terra com todos os seus problemas sociais, políticos e ambientais – vistos na atualidade – é trágica. É uma verdadeira tragédia o que vivemos e assistimos no mundo político e social. Contudo, aceitamos o seu rastro com certa complacência. Poderíamos dizer até que se trata de uma forma de insanidade o que o próprio homem tem causado para si e para a natureza.

Cabe aos artistas, como Mundano, manifestar-se diante desses descaminhos da sociedade. Expressar essa tragédia através do trabalho não só plástico, mas também conceitual com a visualidade da arte de rua, da pichação e do graffiti culminam numa estética denominada de gambiarra,

Mundano denota pouca preocupação na criação de objetos de arte para se levar para a parede, incólumes a decorar uma casa. O que percebemos em sua obra, nesses muitos anos que tem de atuação e trabalho, é que o objetivo que abriga sua criação vem de outra fonte que não a estética ou de coisas ditas belas – como uma escultura ou pintura nos seus sentidos estritos que seguem os cânones acadêmicos da arte (clássica).

Gera uma incerteza ao nos depararmos com essa mostra individual na Emmathomas Galeria. A grande instalação ou os trabalhos na sua individualidade são antes uma forma de manifestar-se. É o que pinta, esculpe ou instala. São manifestos.

O que faz é, de certo modo, uma arte “ansiosa”, parafraseando o crítico de arte norte americano Harold Rosenberg (1906-1978 – em Objeto Ansioso, Cosac & Naify, 2004). “A ansiedade da é uma espécie peculiar de insight. Surge não como um reflexo da condição dos artistas, mas como resultado da reflexão que eles fazem sobre o papel da arte entre outras atividades humanas.”

Tanto a ansiedade quanto a angústia são portadoras da inquietação, o que faz delas uma qualidade filosófica que permite o artista perceber que são essenciais para o ato da criação. Essa ansiedade faz com que os artistas questionem a própria ideia de arte ao alargar esse entendimento.

Portanto, essa “ansiedade artística” fez com que o espaço expositivo da galeria viesse a ser todo transformado para configurar uma grande instalação em que chão e paredes tornaram-se uma coisa só: uma paisagem trágica, meio urbana, meio periférica, ansiosa e feia – como partes representadas da realidade.

O seu manifesto (ansioso e angustiante) está nas suas esculturas, pinturas e instalações, como formas inconformadas de posicionar-se politicamente no mundo. A surpresa é que o que estava fora foi para dentro. O muro que separa o mundo real do fictício foi instalado na sala expositiva para ser, ele mesmo, o objeto artístico mais ansioso, agressivo e claustrofóbico da mostra.
Atravessar o Muro Social – obra de grandes proporções que delimita a mostra – é uma referência aos diversos muros que nos habitam. Entre eles, o muro que separava Berlim Ocidental da Oriental. Mais recentemente, o de Israel construído para isolar-se da Palestina e o mais recente e polêmico, que indica a nova ordem mundial: o de Donald Trump, feito para impedir a entrada dos imigrantes pela fronteira com o México. O mais comum de todos: o que faz parte do nosso quotidiano nas cidades e, agora, no campo. O muro que separa as realidades sociais distintas vistas e sentidas. Muros que são erguidos bloqueando espaços públicos.

Ao adentrar a sala de exposição, deparamo-nos com câmaras de segurança a nos espreitar, transformada na extensão da rua. Já na entrada da galeria, antes do muro mimetizado, há uma escultura na forma de gente feita com extintores de incêndio transformados e ressignificados. A figura é um ativista que carrega um megafone, como que a berrar palavras de ordem em frente ao prédio que abriga a galeria na Alameda Franca, localizada no meio dos bairros residenciais dos jardins paulistanos. O artista produz esculturas de sucata com extintores de incêndio, panelas velhas e quebradas, restos de válvulas e bombas de gasolina, que tomam forma de armas, pregos que viram espinhos dos gigantescos cactos feitos, novamente, a partir de extintores.

A arte de rua, dentro de uma galeria, é o graffiti que se mistura com a pintura. Chão de papelão, recolhido com os catadores de materiais recicláveis, que, depois, foram grafitados de maneira a desenhar um solo terroso árido, que nos faz lembrar a seca que abate a cidade e suas represas de água.

De um lado, a tinta cinza em alusão às vozes e cores caladas nas ruas de São Paulo. Do outro, telas, esculturas, objetos e instalações de cores vivas e pulsantes – ruídos que fazem referência a uma série de problemáticas da atualidade: dos impactos ocasionados pela crise de água à questão dos refugiados em diversos pontos do globo.

É esse o tom de Vozes Mundanas, primeira individual do artista Mundano na Emmathomas, conhecido internacionalmente pelo projeto PimpMyCarroça, ONG criada em 2012, que leva arte mundo afora para ampliar a voz e dar visibilidade aos catadores de materiais recicláveis de grandes cidades em todo mundo.

Essa exposição poderia ser um pretenso recurso para uma revolução social. Ao propor um muro dentro da galeria, Mundano quer nos chamar a atenção para a nossa própria ideia de autoconfinamento. Uma forma contemporânea de viver. Acredita-se que temos liberdade dentro de quatro muros ou paredes. É uma falsa ideia. Pelo contrário. Essa condição nos retira do convívio com as pessoas e limita o direito ir e vir. Exclui-nos dos espaços coletivos da cidade. Ficamos isoladas das ruas.

Mundano não só cria a sensação do confinamento claustrofóbico para o visitante, como também o joga numa paisagem inóspita, interna. Criada como uma pintura sobre papelão que recobre o chão da galeria, mimetizando a ideia de uma terra arrasada pela seca e pela falta de água que assola as grandes cidades do mundo.

Sobre o muro se vislumbra um céu azul coalhado de nuvens brancas e cinzas, feitas de sacos plásticos sujos, aludindo a um céu contaminado. A exposição toda leva a crer que é o “mundo do País das Sete Maravilhas de Alice” virado às avessas.

Pinturas de paisagens humanas se espalham pelas paredes muradas da sala. Uma a se destacar é a de uma paisagem bucólica, vista comum nas pinturas acadêmicas do final do século XIX, em que vemos um rio ladeado de vegetação. Céu azul acinzentado, verde esmaecido pelo tempo das nossas florestas e um espelho de água. A tela foi encontrada em um carrinho de catador de material reciclável e comprada por dez reais. Pensava-se anônimo o seu autor. Mas não. Tem origem mesmo tendo sido completamente descartada no lixo. Mundano apropria-se da pintura e no lugar do espelho d’água, pinta com a lama herdada do trágico acidente das barragens rompidas da empresa de mineração Samarco, que derramou lama marrom amarelada, de cor “doente”, contaminada por resíduos letais de metais pesados no Rio Doce, que corta três estados: Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Não sobrou nada da vida do rio e a comunidade ribeirinha ficou comprometida.

O artista faz uma contundente denúncia poético-ecológica usando essa pintura, transformando-a em uma tela com uma temática bastante contemporânea. É como se pegasse um de seus megafones que aparecem em todos os trabalhos como o maior símbolo de seu ativismo. Urgente e necessário.

Mundano, na verdade, propõe a conscientização e convida o público para resistir em prol da preservação ambiental e por causas ligadas aos direitos humanos que, hoje em dia, são banalizados e ridicularizados. Como se o sentido de humanidade não valesse mais quando se observa o mundo em que prevalece o individualismo, a banalidade e a competição nas relações humanas como bens maiores a serem cultivados.

O corpo da obra de Mundano surge de peças e instrumentos de reuso que ele mesmo encontra nas ruas ou daquilo que os catadores de materiais recicláveis oferecem a ele. Dessa busca, o reaproveitamento de insumos como livros que datam 100 anos ou mesmo revistas descartadas que, nas mãos do artista, se transformaram em colagens, representam o consumismo e o desperdício.
Figura quase onipresente na exposição, o megafone, recurso bastante comum às manifestações sociais, é representado em diversas obras, ora ampliando a voz das mulheres, ora salvando dezenas de refugiados à deriva no mar. O objeto aparece também em Panelafone, obra que faz referência aos panelaços, tão presentes em manifestações não só no Brasil. Inventado na Argentina na década de 1980, o panelaço, atualmente, caiu em desuso, mesmo diante de uma famigerada classe política e empresarial envolvida cotidianamente em malfeitos deslavados.
O cacto, outra imagem emblemática a povoar seus trabalhos, personifica a crise hídrica que assola o país e a complacência do povo brasileiro, acostumado a resistir às adversidades, mesmo recebendo poucos recursos dos seus governantes. As plantas trans são construídas a partir de extintores, torneiras, pregos e outros materiais que foram reutilizados conferindo-lhes humor à arte.
Mundano utilizou-se na maioria dos trabalhos da lama tóxica coletada às margens do Rio Doce – o pigmento terroso que contrasta com a paleta de cores característica do artista – verdes vivos, azuis turbinados e vermelhos intensos. O uso desses resíduos como matéria-prima para expressar sua arte são tapas na cara dos incautos.
Ele descreve-se como artivista, tomando sua arte como instrumento para revolução social, seja pela intervenção no espaço público, em galerias de arte ou mesmo pelas palestras que realiza. Sua luta é sempre a mesma: dar visibilidade e amplificar as vozes daqueles que são, muitas vezes, ignorados pelos cidadãos e pelas autoridades. É um autodidata: grafiteiro e ativista, termo quase mal visto na atualidade, procura questionar o comportamento social por meio de intervenções nas carroças que passam a carregar, em sua maioria, frases de impacto inspiradas no contexto local.

A arte aliada ao ativismo é uma poderosa ferramenta de transformação social. Ver um artista ainda disposto a manifestar-se, a preocupar-se com o outro, com o coletivo nas paredes de uma galeria de arte, é um alento. A Emmathomas, ao trazer o artivista Mundano com suas questões expressas no espaço expositivo, arrisca-se com a potência da obra, que incomoda, provoca e gera combustível para reflexão dos caminhos da humanidade. Debate necessário em um contexto de resistência na atual conjuntura política do país, em que forças religiosas e conservadoras tomam o poder e querem impor dogmas ou mesmo descrença na humanidade.

De certo modo, ao observar o processo de criação do artista, percebemos uma organicidade e contrariamente, mas positivamente, uma desorganização motivada pelo contexto social em que o artista vive. Como agora: o de trazer sua obra para o âmbito de uma galeria comercial. O grande desafio dessa mostra na Emmathomas é manter ou permanecer com as veias de artivista íntegras e ativadas no espaço comercial de arte.

Os traços que compõem seus graffitis e, consequentemente, suas telas, são simplificados para atender a necessidade de rapidez para grafitar e pichar os muros da cidade. Como característica dessa velocidade, os personagens são facilmente reconhecíveis pelos traços marcantes: narinas e lábios avantajados. Os olhos são arregalados e expressam ora indiferença, ora espanto. O verde é a cor predominante, aferindo-lhes um aspecto de personagens de quadrinhos. Palavras de ordem de ativismo ecológico juntam-se, colocando os personagens na condição de protestantes, de imigrantes ilegais, de excluídos e invisíveis sociais quando no meio de multidões.

A visão geral de suas pinturas e graffitis é aquela vista nos desenhos de quadrinistas dos anos 60 e 70. Como os de Mundano: caóticos, dramáticos e, por vezes, trágicos e catastróficos, ao alterar as formas humanas tornando-as uma espécie de humanoides na cor verde, fazendo referência à natureza e a animalidade. Personagens que parecem ter saído dos escombros da sociedade ou das tubulações de esgoto.

Há uma inconformidade nas ações, posturas e ideias de Mundano, que torna seus graffitis ativistas necessários diante da conjuntura nacional onde tudo parece passar despercebido pela maioria da população.

Os cactos, que vivem em regiões áridas, caracterizados pela resistência à falta de água ao armazenar, no próprio tronco, reservas de água para sua subsistência, são transformados em escultura viva por Mundano, que insere torneiras metálicas, conferindo-lhes um caráter fantástico e irônico às crises hídricas. Também aparecem com muito humor na forma de tubos de extintores de incêndios, unidos de forma a reproduzir o formato dessa planta.

Com humor, Mundano fala de problemas contemporâneos que assolam a sociedade. Artista e obra trazem um frescor à arte e ao ativismo da rua, agora, para dentro da Emmathomas.

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São Paulo, São Paulo – Brasil, 1986
Vive e trabalha em São Paulo

MUNDANO é um artivista, nascido na cidade de São Paulo e reconhecido internacionalmente por seu graffiti “paporreto”, seja no espaço público, ou em mais de 320 carroças dos catadores de materiais recicláveis. O grafiteiro e ativista procura questionar conceitos e comportamentos dos cidadãos e das autoridades através de intervenções que carregam em sua maioria frases de impacto inspiradas no contexto local. A preservação do meio ambiente e os direitos humanos universais são a base de seu ativismo que transcende as tintas.

Mundano é Ashoka e TED Fellow, fundador da ONG Pimp My Carroça e premiado na área de arte pública, direitos humanos, criatividade e inovação digital. O incansável artivista já definiu sua missão de vida: criar um legado ambiental e social com sua arte. Para cumprir esse desafio, nos últimos 10 anos fez intervenções, exposições e palestras por mais de 40 cidades do Brasil e do mundo.

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